Os contornos de uma decisão tipicamente atleticana
Por Max Pereira
Se não for sofrido, não é Atlético. Ouço essa frase e vejo o atleticano curtir e ruminar esse mantra há tanto tempo que nem sei mais precisar desde quando. Todo jogo do Atlético tem um algo de especial, dramático e, muitas, vezes, apoteótico. Quantas vezes vi o Atlético ressurgir das cinzas, literalmente carregado pela sua torcida ou energizado pela ação de alguém que, conhecendo o espírito da Massa, a despertou e a fez rugir e balançar o Mineirão, tornando o que parecia impossível, em algo até fácil e naturalmente conquistável.
Infelizmente, já vi o contrário também. Vi derrotas amargas e títulos escaparem, seja por artes de algum diabo, cujo apito foi perverso e covarde, seja por uma fatalidade intransponível. No futebol apenas três resultados são possíveis: vitória, derrota ou empate. E, no esporte mais popular e fascinante do planeta, tudo pode acontecer. O pequeno pode surpreender e derrotar o gigante. Um clube sem tradição e sem dinheiro pode superar e fazer dobrar diante de si um adversário poderoso e milionário. As zebras não raras vezes acontecem e temperam o esporte bretão, tornando-o ainda mais interessante e gostoso de ver e de acompanhar.
Mas, para o coração atleticano que conseguiu atravessar 50 anos sem comemorar o título máximo do futebol brasileiro, é insuportável e inadmissível ver seu time em campo indolente, pouco ou nada inspirado, apático, sem energia, sem alegria e sem vibração. Enfim, o atleticano admite tudo, menos ver o Galo com as esporas cortadas, de crista caída.
O Atlético chega a mais um jogo decisivo cheio de interrogações, mergulhado como sempre em um caldeirão fervente de emoções e sentimentos de seus torcedores e invariavelmente sacudido em um mar envolto de críticas, cobranças, desconfianças e, óbvio, de muitas especulações.
A pergunta que fiz no artigo “QUAL É O TIME DO ATLÉTICO QUE VAI ESTAR LÁ NO MINEIRÃO???”, permanece mais atual do que nunca, assim como o alerta que fiz no artigo “É HORA DE AMARRAR AS CHUTEIRAS COM AS VEIAS“, ambos publicados aqui nessa coluna, respectivamente em 1 de março e em 24 de fevereiro do corrente ano.
Como sempre, o Atlético que vai estar em campo na partida de volta contra o Millonarios da Colômbia será aquele resultante do trabalho de preparação do grupo para este jogo, da forma como o espírito de decisão for cultivado nos corações, mentes e espíritos de todos os jogadores, da qualidade do jogo jogado pelo Atlético no jogo dos bastidores e, claro, da interação entre o time e a massa torcedora que for ao Gigante da Pampulha, ainda que a capacidade de público tenha sido fortuita e casuisticamente reduzida.
A perda da invencibilidade na temporada diante do Athletic, longe se ser vista e curtida como terra arrasada, deve, antes de qualquer coisa, ser considerada e tratada como um alerta. Cobranças passionais, caças às bruxas, discursos de ódio e campanhas de bota fora deste ou daquele jogador ou do próprio treinador, não devem ser alimentadas, sob pena de produzirem um formidável e trágico tiro no pé.
Se em 2013, a torcida, contagiada e enfeitiçada pela magia de um Bruxo, acreditou, gritou a sua fé para os quatro cantos do mundo e embalou o time até a conquista da América, em 2014 o “Eu Acredito” levou o Galo a conquistar de forma épica a Copa do Brasil e, em 2021 o time comandado pelo incrível Hulk foi quem fez a Massa acreditar que o sonho era possível e fez cada torcedor calçar as chuteiras de cada jogador, embalando e jogando junto com a equipe atleticana até a glória final, agora é preciso, mais do que nunca, fortalecer aquele amálgama sempre poderoso formado pela relação de fígado e de coração que só o Galista e o Glorioso conseguem costurar.
Todo jogo do Atlético é decisivo para o atleticano. Quem veste o manto sagrado e quem se dispõe a trabalhar no clube ou a comandar os destinos do Galo mais famoso e querido do mundo tem que saber disso. Claro que, antes de serem atletas, funcionários e dirigentes, todos eles são seres humanos e, por isso, erram e acertam, têm quedas de humor e de rendimento como qualquer um de nós, têm problemas, medos, duvidas, dificuldades mil, adoecem e se lesionam. A vida é cíclica, cheia de altos e baixos, as más fases são inevitáveis.
O desafio é, pois, trabalhar para que os bons momentos perdurem o maior tempo possível e os maus sejam cada vez mais curtos. Mas, isto é apenas uma busca, um exercício continuo, “ad eternun”, inesgotável. Tem momentos, que é preciso ir além do trivial, do esperado. Tem que transcender.
Se já não é possível mais contar com as genialidades do Rei Reinaldo e de Ronaldinho Gaúcho e, se já nos faltam os chutes de Éder, de Nelinho e de Oldair, os gols de Dadá Maravilha, o Peito de aço, de Tardelli e de Guilherme Alves, as assistências do Xodó Marques, ao incrível super herói que hoje embala os nossos sonhos e à sua legião, não podemos faltar.
Há vários anos, em um jogo que ficou na história do Atlético, ao ver o time que comandava perder a força, a energia e a se deixar engolir por um Flamengo ferido que buscava virar o placar, o técnico Procópio Cardoso Neto se muniu de uma camisa preta e branca e, diante de seu túnel, passou a comandar a Massa, pulando e brandindo o manto sagrado sobre a sua cabeça sem parar durante quase intermináveis 30 minutos.
A massa se incendiou, o Mineirão balançou, o Urubu se assustou e o Galo Forte Vingador afiou suas esporas, cantou mais alto e construiu uma vitória consagradora.
Se em relação ao primeiro jogo na Colômbia eu já havia escrito aqui no Fala Galo em 8 de março próximo passado, que se tratava de “UMA DECISÃO QUE HÁ MUITO ULTRAPASSOU AS QUATRO LINHAS DO CAMPO”, o momento atual do Atlético, o resultado daquela partida, a derrota e a atuação morna, letárgica e irritante do time atleticano diante do alvinegro de São João del-Rei, a capacidade reduzida de púbico e o eterno disse me disse sobre o clube, dão a este jogo da volta contornos particulares, tipicamente atleticanos, que merecem cuidados e exigem que todos, torcida, funcionários, dirigentes, comissão técnica, treinador e jogadores, façam, cada qual, a sua parte.
Se não é possível esperar um time voando e todos os jogadores em forma, já que, estamos em início de temporada, temos um grupo mais que pontualmente modificado, treinador e modelo de jogo novos e o futebol exige, além de trabalho e planejamento, tempo para que as coisas se encaixem, é perfeitamente possível que outros ingredientes estejam presentes e se interajam de forma a criar os contornos ideais para que o Atlético entre em campo com aquele espírito de decisão que todos queremos ver. O jogo será o que quisermos, se todos jogarmos juntos.
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