Enquanto o Atlético se perde na neblina, a torcida segue tentando enxergar o horizonte

Enquanto o Atlético se perde na neblina, a torcida segue tentando enxergar o horizonte

Foto: Pedro Souza / Atlético

Por: Thiago Florêncio

Se tem um incômodo que o torcedor atleticano já aprendeu a reconhecer de cor: não é o desgosto do tropeço isolado, é o cansaço de enxergar, partida após partida, o mesmo roteiro se repetindo. Foi assim contra o Bahia, nesta terça-feira (21). E o roteiro segue é assim há pelo menos duas temporadas, como um filme ruim em cartaz por tempo demais, cujo torcedor já decorou o final antes mesmo dos créditos. Tempo suficiente para deixar de ser fase e virar padrão, se nada mudar. 

Só para contextualizarmos, há pelo menos duas temporadas o Atlético briga com a parte de baixo da tabela. Em 2025, terminou em 11º lugar, com 48 pontos, cinco a mais que o Ceará, um dos times rebaixados para a Série B. Nesta temporada, segue na mesma 11ª posição, agora com 25 pontos. 

E aí entra a pergunta que fica martelando na cabeça de quem acompanha o clube de perto: será que o problema é mesmo falta de investimento, falta de dinheiro para trazer reforços? Porque, olhando os números, essa explicação simplesmente não fecha. 

Sim, os quase R$ 245 milhões investidos pelo Galo em duas temporadas, são bem abaixo do que Palmeiras e Flamengo colocam em campo, ninguém está discutindo isso. Mas o rival fez um investimento próximo ao nosso e, com escolhas certas e pontuais, garantiu vaga na Libertadores deste ano. Percebeu que a diferença não está no tamanho do cheque, mas em saber escolher as peças certas para o tabuleiro, em sentar e planejar antes de gastar. 

O discurso repetido da “limitação financeira” não resiste a essa comparação. O clube gasta, e gasta mal. Nomes como Jr. Santos, Rony, Alexsander, Gabriel Menino, Caio Paulista, Angelo Preciado e Mateo Cassierra são só alguns exemplos de contratações que não trouxeram o retorno financeiro nem esportivo que a torcida e a diretoria, presume-se, esperavam. Mas fica a pergunta: de quem é essa conta? 

É importante enfatizar que o intuito aqui não é defender ninguém, mas também não dá para jogar toda essa culpa nas costas do Paulo Bracks sozinho. É necessário entender que existe uma cadeia de fatores, escolhas, problemas estruturais, e possivelmente de cultura interna que travam a chegada de grandes reforços. 

Depois do empate contra o Bahia, o técnico Eduardo Domínguez foi ponderado. Cobrou reforços, mas disse compreender as limitações e que ainda há tempo de mercado. Mas dentro de campo, a realidade veio à tona: um banco de reservas em que o próprio treinador parece não confiar. 

Só Dudu e Reinier entraram no segundo tempo, e nenhum dos dois foi capaz de mudar a cara do jogo. Não por falta de vontade, mas sim, por falta de repertório coletivo. Nessa janela pós-copa, até o presente momento, o nosso único reforço é Léo Duarte, contratado junto ao Istambul Başakşehir, em mais uma “oportunidade de mercado”. O zagueiro mal chegou e já se lesionou. O elenco é curto, e pior: não tem, hoje, quem entre e vire um jogo pelo banco. 

Isso aponta para três buracos que o elenco carrega há tempo. O primeiro é a ausência de um volante de marcação com hierarquia, um problema que se arrasta desde as saídas de Rodrigo Battaglia e Otávio. A aposta atual é o jovem argentino Tomaz Pérez, contratado junto ao Porto, um nome promissor, mas que para o atual momento do clube não vem entregando o que precisamos, a experiência. O segundo é a falta de repertório no último terço do campo: decisões equivocadas na hora de finalizar, construção de jogada sem objetividade. E por último e não menos importante, as falhas defensivas que voltam a se repetir jogo após jogo. 

Depois de 50 dias parados por causa do Mundial, o torcedor esperava um recomeço. Encontrou o mesmo cenário desanimador de antes da pausa. E é natural que o nome de Bracks volte a ser questionado nas arquibancadas e nas redes, não por implicância, mas por acúmulo. Acúmulo de promessas vindas da SAF que não viraram resultado, de discursos de cautela que não se traduzem em planejamento visível.

No fim das contas, a Massa segue olhando para frente, jogo após jogo, tentando enxergar alguma linha em meio à neblina de resultados ruins, contratações que não vingam e discursos que se repetem sem nunca virar plano. Ela não parou de olhar adiante. Continua nas arquibancadas, na fila do ônibus, no grupo de WhatsApp que discute escalação antes de cada rodada, sempre tentando decifrar para onde o clube está indo.

O problema é que, do outro lado, quem deveria apontar o rumo também parece perdido na mesma neblina. Falta ao Atlético o que sobra no nome da própria cidade que o viu nascer: um horizonte. E até lá encontrarem essa linha juntos, o torcedor seguirá fazendo o que sempre fez, olhando para frente, mesmo sem saber exatamente o que existe depois da névoa.


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