Heterogênea, apaixonada, apaixonante, bipolar e passional… Assim é a Massa!!!
Por Max Pereira
Nesses tempos de muita polarização e até de normalização e vulgarização da violência, do ódio e da intolerância, a Massa atleticana está sendo, como sempre, desafiada a conviver com momentos curiosamente típicos e recorrentes na história do Atlético, mas que incomodam, irritam e deixam cada galista apaixonado mais e mais preocupado e inseguro quanto ao que possa acontecer nesse 2023 que, para o Glorioso, já começou cheio de incertezas e gerando mais perguntas do que respostas.
Dentro do campo, o Atlético vem passando por uma reestruturação de time, de elenco e de forma de jogar. Mais que pontuais, as saídas e as chegadas que estão acontecendo e o trabalho de um novo treinador mudaram significativamente os paradigmas do grupo atleticano.
E, ainda que os novos contratados possam ser considerados peças de reposição, suas características técnicas e pessoais, naturalmente diferentes dos que deixaram o clube, e o modelo de jogo de Coudet indicam novos tempos para o Galo dentro das quatro linhas. Se serão bons ou ruins, quem viver, verá.
Fora das quatro linhas, o Atlético, enquanto tenta driblar credores internos e externos, continua envolto na constituição de sua SAF e na definição daquele que virá a ser o seu grande e salvador parceiro, i.e., o investidor que virá livra-lo de suas onerosas e sufocantes dívidas.
Assim, como tudo o que acontece na vida e no futebol não é diferente, acertos e desacertos acontecem, indefinições surgem daqui e dali e escolhas de todos os tipos são feitas. Se a SAF será um acerto ou não, só o futuro dirá.
Mas, para que as coisas deem certo dentro de campo é preciso, trabalho, tempo, experiências, ajustes, que os atletas recém chegados e os garotos egressos da base tenham respeitados os tempos de adaptação e transição de cada um, como de condicionamento físico-atlético pessoal, e que o clube busque sempre preservar um ambiente sadio, de confiança, de harmonia e de respeito entre jogadores e entre estes e os comandantes e demais funcionários, independentemente de quem sejam e dos seus níveis de poder e de decisão.
Fora de campo não é diferente. Para que no futuro qualquer projeto se concretize trazendo bons frutos é preciso trabalho, tempo, organização, planejamento, ajustes, eventuais correções de rota e que o clube se cerque de determinados cuidados que vão desde utilizar em cada função profissionais que tenham a expertise que cada área exige, a saber proteger os seus direitos e os seus interesses mais nobres.
Assim como para se encaixar e ser brilhante, não basta a um time ter só craques no seu elenco, a uma organização, empresa ou associação, não basta ter no seu staff funcionários especializados e conhecedores do seu ramo de atividade. É preciso mais. E, no futebol, então, é preciso muito mais. É preciso, também, que a Massa faça a sua parte.
Mas, de que Massa estamos falando? Estamos falando dessa Massa que só destila ódio ou aquele torcedor apaixonado que fazia o Mineirão e os adversários tremerem ainda pode ser resgatado? Enfim, como a Massa alvinegra pode ser um agente transformador positivo para o clube?
O companheiro do Fala Galo, Silas Gouveia, postou em suas redes sociais que “não existem regras pra torcer”. E emenda: “As redes sociais amplificam um discurso de algo que sempre existiu e vai continuar existindo, que é a ‘cornetagem’. Nos estádios os mais frustrados descarregam suas mágoas. Os mais felizes aproveitam para curtir seu time”. Mas, será sempre assim, como acredita o velho parceiro?
E mais: como será ou se comportará a torcida atleticana que conseguirá acessar regularmente a Arena MRV, já que, considerando o potencial e a diversidade da Massa, provavelmente será um público elitizado, se levarmos em conta a capacidade reduzida e inelástica (46 mil lugares) da nova casa do Galo e a necessidade de se praticar um ticket médio relativamente elevado para que o estádio se mantenha rentável e não dê prejuízo? Será um público modinha, raivoso, intolerante e irracionalmente exigente, tal como esta parcela irascível que aos poucos está tomando conta do Mineirão nos jogos do Galo?
O alpinista e atleticano Gustavo Ziller, neto do saudoso jornalista Adelchi Ziller, histórico e emblemático conselheiro, defensor e torcedor do Galo, escreveu em suas redes sociais que “fui ao Mineirão com minha enteada neta, primeira vez dela e acho que nunca mais volta. Motivo? Onde eu estava (roxo inferior), a torcida desaprendeu a fazer o básico, torcer. Ali tinha um rio de lamentações, frustrações, raiva, ódio, sei lá… que energia ruim”.
Os atleticanos são muitos, complexos, sanguíneos, apaixonados. Heterogênea, apaixonada e apaixonante, bipolar e passional, assim é a Massa. E, talvez por isso, existem aqueles que condenam o que chamam de patrulhamento e defendem que ninguém é igual a ninguém. Para estes, e não deixam de ter razão, as pessoas torcem com sentimentos. E concluem: quem assim não pensa, não está preparado a ir ao Estádio e nem viver em sociedade.
Nem tanto ao mar e nem tanto à terra. A liberdade de expressão e, dentro dela, a de torcer, reclamar, criticar, discordar, cobrar e até vaiar, não pode se transformar em um linchamento sumário e, muito menos, em uma exploração e prática de um discurso de ódio que nada constrói e que, ao contrário, só contribui para o caos, para a barbárie nos relacionamentos e para a desagregação de qualquer grupo, clube, organização, família e do próprio país.
A relação torcida/time é um caminho de mão dupla. Ora é o time que cativa o torcedor nas arquibancadas, o envolve e o torna um décimo segundo e fundamental jogador. Ora é a própria torcida que se ergue, empurra e embala a os jogadores, tornando o que parece impossível em algo mais do factível.
Se essa capacidade de interação da Massa com o time continuar se deteriorando e se metamorfoseando e a torcida deixar de corresponder e de ser a força motriz e a âncora dos jogadores que estiverem em campo, o que historicamente sempre foi a marca do atleticano, o Glorioso se tornará um mero coadjuvante no futebol brasileiro e os inimigos do clube agradecerão e estourarão os seus champanhes em uma comemoração enlouquecida.
A tarefa de manter esta relação proativa e perene é tanto da torcida quanto clube. Como em qualquer relacionamento, é fundamental que os dois lados façam a sua parte. A vitalidade e a longevidade de um casamento só são possíveis se ambos, marido e mulher, alimentarem este relacionamento, i.e., o adubarem e o revitalizarem continuamente.
A relação Massa/Atlético é mais complexa do qualquer outro relacionamento que se conhece. É histriônica e passional ao extremo. E, por isso, exige cuidados especiais de ambas as partes.
Historicamente, o futebol cumpriu uma função catártica. Hoje os tempos são outros e o futebol já não mais consegue cumprir este papel. Se antigamente com a vitória do time do coração o torcedor se vingava das frustrações do dia a dia, hoje, tal o nível de violência, ódio, intolerância e radicalização, isso não acontece mais. Basta lembrar que a polarização política e a banalização do ódio, da violência e da intolerância que dilaceram o Brasil têm afetado compulsória e inevitavelmente o comportamento das torcidas e, claro, o da Massa alvinegra também.
Muitas vezes, o jogador do próprio time é quem vira alvo de ataques cada vez mais virulentos. Basta o jogador ser de um campo político diverso, ser de uma etnia, cor de pele ou religião diferente ou ainda de determinada origem, estado ou país, para que seja odiado e massacrado. E a história do Atlético está recortada de exemplos clássicos. Muitos jogadores passaram de heróis a vilões e de ídolos a renegados odiados.
O imediatismo é outra praga que infesta a alma atleticana. E, não bastasse isso, a memória de um 2022 que foi muito ruim, tende a levar o torcedor atleticano a desconsiderar vários fatores que inegavelmente têm afetado negativamente o rendimento do time. Perdendo a capacidade de separar o joio do trigo, o galista apaixonado também se vê constantemente confundindo a crítica construtiva, inteligente e proativa com a chamada “cornetagem”, esta sim sempre um exercício vazio, fraco e destrutivo.
Os atleticanos são muitos, complexos, sanguíneos, apaixonados. Heterogênea, apaixonada e apaixonante, bipolar e passional, assim é a Massa que pode voltar a ser forte, poderosa e, como sempre fez, fazer calar e tremer os adversários, desde que entenda a força e a importância das críticas e das cobranças inteligentes, parcimoniosas e construtivas. Discordar é um direito. E não é o mesmo que linchar, massacrar e, na linguagem atual das redes sociais, não é o mesmo que CANCELAR.
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