Aníbal Machado: o menino que fez o primeiro gol do Atlético e virou mestre do conto brasileiro

Aníbal Machado: o menino que fez o primeiro gol do Atlético e virou mestre do conto brasileiro

Foto: Revista O Cruzeiro / Reprodução

Por: Thiago Florêncio

Um livro russo de 1886, com pouco mais de cem páginas, entrou no vestiário do Atlético neste mês de setembro. Gustavo Scarpa gravou uma resenha de A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói, no canal que mantém no YouTube, e a Massa fez o resto. O livro chegou ao primeiro lugar de vendas da Amazon no Brasil.

Do outro lado, Carolina Marques, estudante de Letras e atleticana, criou a Galeitura, e em poucos dias, centenas de torcedores liam o mesmo livro, com cronograma dividido por semanas, do jeito que acompanhamos a tabela do Brasileirão.

Na Cidade do Galo, Scarpa começou a filmar os companheiros com livro aberto no intervalo dos treinos. Victor Hugo apareceu lendo. Tomás Pérez também. “A coisa tá ficando séria mesmo!”, escreveu o meia.

Muitos trataram a cena como novidade, quase como curiosidade de bastidor. Eu achei graça. O Atlético tem um leitor, e dos grandes, na primeira página da sua história. Mais precisamente, no primeiro gol de sua história centenária.

Belo Horizonte tinha acabado de fazer onze anos quando o Atlético entrou em campo pela primeira vez, em 21 de março de 1909. O jogo aconteceu em um campo que ficava onde hoje está o Minascentro, no Centro da capital, contra o Sport, clube da cidade. O técnico Chico Neto escalou no meio-campo um garoto de 14 anos, nascido em Sabará, no dia 9 de dezembro de 1894, que os companheiros chamavam de Pingo. O Galo venceu por 3 a 0. O primeiro gol da história do clube foi dele.

Pingo se chamava Aníbal Monteiro Machado. O país ainda ia ouvir muito esse nome, só que longe dos gramados. A bola ficou na adolescência. Os livros ficaram para a vida. Aníbal se formou em Direito em 1917, na faculdade que hoje pertence à UFMG, como orador da turma. 

Foi promotor público, professor, jornalista e crítico. Andou com os modernistas, mudou-se para o Rio de Janeiro e fez da própria casa, na Rua Visconde de Pirajá, em Ipanema, um dos endereços mais frequentados da cultura brasileira. Aos domingos, a sala recebia gente como Clarice Lispector, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes e Candido Portinari. Eu consigo imaginar o meia do primeiro escrete alvinegro servindo café para essa turma e discutindo arte até tarde.

Aos domingos, a sala recebia gente como Clarice Lispector, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes e Candido Portinari
Casa de Aníbal Machado, localizada na rua Visconde de Pirajá, nº 487 (Foto: Reprodução / Instagram).

Escreveu contos, ensaios, poemas em prosa, roteiros para o cinema e crítica de artes plásticas. Traduziu Franz Kafka, um dos escritores mais influentes do século XX. Presidiu a Associação Brasileira de Escritores. Ganhou da Academia Brasileira de Letras, o Prêmio Cláudio de Sousa, pela peça O Piano. Em 1957, reuniu em Cadernos de João, os textos de ABC das Catástrofes e Topografia da Insônia, de 1951, e de Poemas em Prosa, de 1955. Nessas páginas, ele pensa filosofia e existência com uma limpidez rara, de quem leu muito e desconfiou de toda resposta pronta.

Foi no conto que ele virou mestre. A Morte da Porta-Estandarte e Viagem aos Seios de Duília estão entre as histórias mais lembradas da nossa literatura, e João Ternura é outro título obrigatório para quem quer conhecê-lo. Parte dessa obra chegou a ser adaptada por Manoel Carlos, o novelista das Helenas.

A literatura de Aníbal vai atrás da vida justamente no que ela tem de incompleto e quebradiço. Ele se via como um homem inacabado, em mudança permanente, movido pelo espírito da aventura. Acho bonito pensar nisso a partir da posição em que ele jogou. O meio-campista é quem liga a defesa ao ataque, quem enxerga o lance antes de ele existir. Aníbal fez isso a vida inteira fora do campo, ligando Minas ao Rio, a página escrita ao cinema e ao palco.

E ligou a própria casa ao futuro. A filha, Maria Clara Machado, virou escritora e dramaturga, autora de peças infantis que atravessaram gerações, como Pluft, o Fantasminha. Fundou O Tablado, escola de teatro do Rio de Janeiro que já formou mais de cinco mil profissionais das artes cênicas no Brasil. Muita gente que você vê hoje na televisão aprendeu o ofício naquele palco.

Aníbal Machado morreu no Rio, em 20 de janeiro de 1964, aos 69 anos. Não conheço outro clube brasileiro que tenha um mestre do conto como autor do primeiro gol do Gigante e Colossal das Alterosas.

Por isso, a Galeitura me emociona mais do que parece à primeira vista. Futebol, no Brasil, chega aonde quase nada chega. Um vídeo de um jogador comentando Tolstói fez um clássico do século XIX sumir das prateleiras. Campanha publicitária de editora nenhuma teria esse alcance em uma semana.

Existe um preconceito antigo, e ele corre para os dois lados. Tem quem ache que jogador não lê, e tem quem ache que leitor sério não deveria perder tempo com futebol. A história do Atlético desmonta essa ideia desde a primeira partida. Em 1909, cultura e bola estavam no mesmo campo, dentro do mesmo menino.

Agora, o movimento ganhou um braço institucional. O Instituto Galo e a Galeitura recebem doações de livros infantojuvenis, em pontos espalhados por BH, na Arena MRV e em lojas oficiais do clube. Livro para criança e adolescente, justamente o público a quem sua filha dedicou a vida.

Galeitura e Instituto Galo se reuniram para fazer uma campanha de doação de livros.
Galeitura e Instituto Galo se reuniram para realizar uma campanha de doação de livros. (Foto: Instagram Galeitura / Reprodução)

Aníbal Machado se dizia inacabado. Gosto de pensar que o Atlético também é, e que a história do clube segue sendo escrita por quem entra em campo e por quem abre um livro na arquibancada. Um exemplar doado nesta semana pode parar na mão de um garoto de 14 anos, a idade de Pingo em 1909. Ninguém sabe o que ele vai fazer com isso. Pode ser um gol. Pode ser um conto.


SIGA OS PERFIS DO FALA GALO:
BlueSky

X/Twitter
Instagram
YouTube
Threads
Google Notícias
WhatsApp
Telegram
TikTok