Rodízio: fazer ou não fazer, um falso dilema
Por Max Pereira
Coudet, desde aquela polêmica e emblemática entrevista, na qual desabafou e externou todo o seu desagrado para com a politica de redução de elenco e da folha de pagamentos adotada pelo comando do clube, sem, entretanto, promover as reposições e fazer as contratações ele julgava necessárias e importantes para desenvolver o seu trabalho, vem alternando a figura de vilão para alguns e de herói incompreendido para outros.
E, ainda que muitos continuem insistindo em falar e em apenas lembrar da multa que seguramente o prendeu ao clube, o rodízio, famigerado para vários atleticanos, e necessário e inevitável para outros tantos de torcedores e observadores, é hoje, sem dúvida, a maior polêmica envolvendo o trabalho do treinador argentino.
“Como é possível obter um entrosamento minimamente razoável se a cada jogo uma equipe diferente for escalada?, perguntam aqui e ali”. “Ah! Em time que está ganhando não se mexe, já diziam e ensinavam os antigos formadores de opinião”, lembram outros. “Assim como o Atlético não tem um time titular definido, Coudet também não tem uma proposta de jogo pronta e acabada. Chacho está perdido”, opinam outros tantos.
Assim como o futebol mudou e continuará mudando através dos tempos, certas teorias deixam de ser verdades absolutas e muitas certezas deixam de existir, embora algumas ideias de base remanesçam, ainda que tenham nomes e abordagens diferentes. Por exemplo, o que antes era chamado de entrosamento, hoje tem o nome de padrão de jogo.
Treinadores hoje considerados ultrapassados e alguns até já aposentados já defendiam há tempos que não se joga mais e muito menos se ganha jogo e campeonato com apenas 11 jogadores. Não raro, muitos técnicos diziam que “tenho 17, 18 ou até 20 titulares e não apenas 11”.
E olha que essas teses eram defendidas em um momento que podemos chamar de transição para o que o futebol é hoje. Já disse e escrevi várias vezes que os tempos do futebol romântico e plástico se foram há muito. E o futebol, hoje um negócio sistêmico, multibilionário e multifacetado fora das quatro linhas, sofre hoje dentro de campo os reflexos inevitáveis dessa sua complexidade moderna.
Nesse sentido, o torcedor do Galo e ex-comentarista da Rádio Clube de Curitiba, Marco Coelho, nos ensina que o crescimento do numero de clubes brasileiros na Libertadores e na Copa Sul-americana e, portanto, junto com a Copa do Brasil e o Brasileirão, disputando simultaneamente três competições pesadas e diferentes entre si, mudou substancialmente o futebol brasileiro, tornando impensável a qualquer treinador, brasileiro ou não, não rodar o time.
Aqui, como nos lembra Coelho, o Brasil é um pais continental e o calendário brasileiro, extremamente perverso, obriga os times a fazerem viagens longas e desgastantes, muitas vezes de logística complicada. Não raro, os jogadores passam boa parte do seu tempo entre um jogo e outro nos aeroportos e dentro de um avião, o que torna impossível recuperá-los para o confronto seguinte e, portanto, utilizá-los uma partida sim e outra também.
E, não bastasse isso, o futebol dos tempos atuais tem se tornado cada vez mais físico, tático e mental, o que exige dos jogadores muita entrega e um nível de competitividade, de dinâmica de jogo e de intensidade cada vez maior e mais estressante. E mais: é preciso também se preparar jogo a jogo, pois cada adversário impõe dificuldades e desafios táticos, físicos e mentais diferentes ente si.
Assim, apesar do time atleticano, não obstante as constantes mudanças em sua escalação de jogo para jogo, estar conseguindo mostrar e manter um padrão e uma evolução satisfatória aos olhos de muitos de seus torcedores, eu entre estes , e de muitos analistas, é natural que de uma partida para outra surjam maiores ou menores dificuldades e que, ora a equipe alvinegra jogue bem, ora já não renda tanto quanto gostaríamos que rendesse ou que não repita uma boa atuação anterior ou ainda que não produza o que o potencial do grupo sinaliza.
Dizem que para os europeus o jogador brasileiro é normalmente avesso a esquemas táticos e a qualquer rigidez seja tática, seja disciplinar. Muitos defendem que os esquemas táticos cada vez mais rígidos estão minando o espaço do jogador criativo e que o futebol coletivo de hoje acaba engessando a criatividade e as iniciativas individuais. Muitos acreditam que Garrincha não conseguiria jogar nos dias de hoje. Tenho as minhas dúvidas.
De qualquer maneira, existe um desafio, ao meu ver absolutamente salutar, tanto para dirigentes e teólogos de futebol, treinadores e jogadores, enfim, para qualquer profissional que trabalhe com o esporte bretão, qual seja, contemporizar o esquema tático com a individualidade. Quem souber fazer isso primeiro, sairá na frente em qualquer competição.
Cada jogo é um jogo. Os jogos não se repetem. E as atuações individuais por razões diversas e, muitas vezes incontroláveis, também variam. Aliás, não canso de dizer e de escrever que todo processo evolutivo comporta idas e vindas, avanços e recuos. Tempo, trabalho e planejamento continuam formando o trinômio central e essencial para a consecução dos bons resultados.
O rodízio, portanto, não é um mal necessário como defendem aqueles que, embora entendam a sua importância, ainda são refratários em relação à sua utilização. O rodízio é um bem necessário. Todos os times brasileiros hoje em dia rodam os seus times, até mesmo aqueles que disputam duas ou uma competição apenas, tal é o nível de exigência do futebol atual.
Marco Coelho nos lembra ainda que os clubes hoje em dia são mais fechados. Os setoristas não têm mais aquela liberdade de outros tempos nas dependências dos clubes e, por isso, nem mais se relacionam com os jogadores como antes. A pandemia acelerou e potencializou este distanciamento e contribuiu para que menos informações sobre o dia a dia dos jogadores e dos treinamentos cheguem ao grande público.
Assim, o que já é bastante difícil se tornou praticamente impossível, ou seja, ao torcedor comum saber a real situação, as reais condições de jogo de cada atleta e do porque este ou aquele jogador foi para o banco ou sequer foi relacionado. E, muitas vezes, o clube contribui para que o achismo e as discordâncias em relação a esta ou àquela escalação ou a esta ou aquela ausência entre os relacionados para o jogo floresçam e o disse-me-disse destrutivo se espalhe e provoque danos.
Muitas vezes a informação vinda dos interiores do clube de que fulano ou ciclano não entrou jogando ou sequer foi relacionado para o banco de reservas apenas por uma opção técnica ou pessoal do treinador não traduz a toda a verdade. Se o comandante optou por A e não por B deve ter uma razão.
Não me recordo de ouvir ou ler algum pedido de desculpas ou algum esclarecimento buscando desfazer a confusão e desarmar os espíritos bravios e passionais do torcedor irritado.
Quase sempre se esquece que o jogador antes de ser atleta é um ser humano falível, que erra e que acerta, que tem problemas físicos, de saúde ou pessoais como qualquer um de nós. Fazer ou não fazer o rodízio é um falso dilema. E não fazer o rodízio é hoje uma medida temerária que nenhum treinador minimamente consciente e responsável peitaria por em prática.
O Turco Mohamed tinha escarradas razoes ao defender em seu portunhol a importância de um elenco largo que, em seu idioma pátrio, o espanhol, quer dizer um elenco rico em opções e em qualidade, suficiente para lhe dar condições de escalar, jogo a jogo, o melhor time possível. Não atoa os jogadores alvinegros apoiaram Coudet quando este protestou publicamente neste sentido.
Aos olhos de qualquer observador minimamente atento o time atleticano está em franca evolução, o que não significa que já pode render tudo o que dele se espera e que ele pode entregar e, ainda, que nem alguma performance ou um eventual resultado negativo não possam mais ocorrer. E, tampouco, já se pode predizer que o Galo já é o virtual hiper campeão da temporada.
O que acontecerá daqui pra frente, i.e., se o time pelo menos brigará para valer pelos títulos que disputa dependerá não só da continuidade do trabalho de Coudet, como também das condições dadas a ele pelo clube para continuar desenvolvendo seu modelo de jogo e também do que o Atlético fizer de bom ou de ruim fora das quatro linhas, seja intramuros do clube, seja no jogo dos bastidores e seja ainda no mercado da bola.
Se os torcedores devem ou não temer a próxima janela de transferências e se os negócios que o clube porventura praticar a partir de sua abertura serão ou não um desastre para os resultados esportivos desejados pelo mundo atleticano, só o futuro dirá.
Do lado de lá, do clube, exige-se trabalho, planejamento e expertise. Do lado de cá, do torcedor, vigilância, cobrança e participação, Ah! E que o Glorioso não se perca em falsos dilemas.
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Este texto é de inteira responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, o pensamento do portal FalaGalo.
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Foto: Pedro Souza/Atlético