Meu filho me pediu uma camisa do Galo

Meu filho me pediu uma camisa do Galo

Foto: Daniela Veiga / Atlético

Por: Éverton Filipe Carvalho

Comprei o uniforme completo. Quando chegou, vestiu na mesma hora, abriu um sorriso enorme e chorou de felicidade.

Enquanto olhava para ele, voltei no tempo.

Lembrei de um posto de gasolina onde meu pai abastecia. Havia um armário cheio de prêmios trocados por pontos. Entre eles, uma camisa cinza do Galo. Era tão falsificada que hoje eu dou risada só de lembrar. Mas, para mim, aquilo era um tesouro.

Insisti tanto que meu pai trocou os pontos por ela.

Naquela época, eu era um pré-adolescente. Ter uma camisa do Atlético era um privilégio. Hoje, meu filho escolhe o modelo que quer. Naquele tempo, a gente vestia a que conseguia.

Mas essa nem foi a minha primeira camisa.

Quando fiz sete anos, meu tio me deu uma camisa branca do Galo, com “Coca-Cola” escrito em vermelho. Não lembro da festa, do bolo nem dos outros presentes. Só lembro daquela camisa.

Depois dela, passei muitos anos sem ganhar outra.

Hoje, abro o guarda-roupa e encontro várias camisas do Galo: branca, preta, cinza, vermelha e a listrada, minha favorita. Quase sempre saio de casa usando uma delas, porque não importa se o Galo está brigando por títulos ou vivendo uma fase ruim. O manto vai além disso. É parte da minha história.

Quando meu filho experimentou a camisa, veio a primeira decepção.

— Pai, ela veio sem número.

Expliquei que moramos no interior e que, quando fosse possível, iríamos à Loja do Galo colocar o número e o nome do jogador que ele quisesse.

Dias depois, ele voltou com uma pergunta.

— Pai, qual é o maior jogador do Galo hoje?

De início, pensei no Hulk. Mas lembrei que ele já tinha ido embora.

Pensei mais um pouco.

— Acho que é o Everson.

Ele respondeu na hora:

— Mas minha camisa não é de goleiro…

Foi aí que ele fez uma pergunta simples, mas que me deixou sem resposta.

Quem eu colocaria nas costas daquela camisa?

Em 2013, eu não teria essa dúvida. Ronaldinho, Tardelli, Victor, Réver, Leonardo Silva, Pierre, Leandro Donizete, Luan…

Em outros anos ainda tivemos Marques, Guilherme, Doriva, Negrini, meu primeiro ídolo, e tantos outros.

Nem todos eram craques. Mas todos tinham alguma coisa que fazia a torcida se identificar. Uns pela técnica. Outros pela raça, pela entrega, pela vontade de vencer.

Eu teria orgulho de usar o nome de qualquer um deles.

Hoje, procurei um nome.

Lyanco?

Na verdade, percebi algo que doeu mais.

Não sei qual nome colocaria.

Meu filho continua esperando a resposta.

Antes dessa história terminar, aconteceu outra coisa.

Ele queria muito a All Black do ano passado. Expliquei que aquela camisa tinha sido exclusiva do Galo na Veia e não era mais vendida. Ele entendeu e ficou feliz com a listrada deste ano.

Uma semana depois, em seu aniversário, ganhou uma All Black. Não era original, mas era muito bonita. Quando abriu o pacote, sorriu do mesmo jeito que havia sorrido ao vestir a primeira camisa.

Hoje ele tem duas camisas novas do Galo.

As duas continuam sem número.

Sem nome.

E foi então que percebi que essa história nunca foi sobre uma camisa.

Quando eu era menino, o difícil era ter o manto do Galo.

Hoje, o difícil é encontrar um nome que mereça estar nas costas dele.

Meu filho me fez uma pergunta que parecia simples.

Mas, pela primeira vez em muitos anos, eu não soube responder.

“No fim das contas, usei aquela camisa cinza só uma vez. Era enorme, me zoaram porque ela era falsificada e eu não tive peito para bancar. Nunca mais tive coragem de vestir.”


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