Atlético, o rei dos paradoxos. É sempre tudo ou nada…
Por Max Pereira
Já escrevi um sem número de vezes e é também voz corrente entre atleticanos e entre aqueles outros que conhecem minimamente o coração do Galista apaixonado que no mundo alvinegro tudo é 8 ou 80. Não existe meio termo. E o clima de terra arrasada se instala ao menor dissabor. E, como notícia boa é a notícia ruim, aquela que vende jornal, tome notícia ruim.
Desde que me entendi atleticano aprendi que a paixão por este clube mítico e turbulento por natureza sempre seria temperada por sentimentos explosivos. Entendi, também, que jogo a jogo eu seria levado ora do êxtase a agonia, ora da angústia desesperadora e do tormento infinito à uma felicidade suprema, a um deleite divino.
Dentro e fora do campo, o Atlético sempre desafia essa paixão maluca, incomparável e desmedida de seus torcedores. A crônica e retroalimentada instabilidade financeira do clube, fruto de uma sucessão de gestões infelizes, é com certeza a maior fonte dos problemas que historicamente tem sacudido o Glorioso. E mais uma ameaça de Transferban chega nos ares atleticanos.
Ao longo dos tempos, o Atlético tem sido duramente derrotado no jogo dos bastidores. O futebol é hoje um negócio multi-bilionário e sistêmico. Não se ganha nada apenas dentro de campo. O jogo dos bastidores, cada vez mais perverso e complexo, exige dos clubes nos dias atuais uma expertise política fora do campo que o Atletico nunca foi capaz de possuir.
Enquanto a dívida explode mais uma vez e pressiona o clube a tomar medidas extremadas e a maioria delas temerárias, em um contínuo e irrefreável apagar incêndios, o Atlético mais uma vez busca as soluções mais simples e, por isso, ruins, como, por exemplo, reduzir a folha de pagamentos sem qualquer planejamento.
Inseguro e por vezes descontente, o grupo se ressente dessa política que normalmente desequilibra o emocional dos atletas e também a estrutura do próprio elenco, quase sempre reduzido perigosamente, o que tem deixado os treinadores de plantão bastante incomodados.
Turco na temporada passada, por exemplo, nunca escondeu a sua preocupação com essas medidas e neste ano Coudet já explodiu e concedeu aquela bombástica e reveladora entrevista.
O Atlético, diante do Alianza de Lima, fez a sua melhor partida nesta temporada contra todas as expectativas de grande parte de sua torcida e de quase todos os formadores de opinião de plantão, sejam aqueles da mídia convencional, sejam os influencers das redes sociais, que esbravejaram e criticaram o treinador tão logo tomaram conhecimento da escalação do Galo para aquele confronto inédito na história da Libertadores.
“Como ganhar entrosamento se Coudet não repete o time?”
“Com o time tão mexido assim é impossível jogar bem coletivamente”.
“Quem vai jogar na lateral direita? Nathan Silva? Noite de sofrimento”
Essas foram algumas das pérolas ditas e escritas tão logo o time atleticano foi anunciado.
Após o jogo jorraram aqui e ali inúmeros elogios ao treinador. Eu próprio assim me manifestei em minhas redes sociais: “Menção honrosa para Coudet que mostrou que ele trabalha o grupo e não apenas um time titular, como deixou claro que ele já conhece e bem o elenco que tem à sua disposição”.
“Time diferente e padrão de jogo mantido”, foi a frase mais repetida por comentaristas e por torcedores. Mas, a bela atuação, a primeira vitória na Libertadores 2023 e a percepção de uma evolução do futebol atleticano não esconderam os problemas do time.
O elenco está perigosamente curto e disputar simultaneamente três competições pesadas e diferentes é sempre bastante desgastante, vez que as contusões e as suspensões se tornam recorrentes.
Além disso, Hulk, de uns jogos para cá vem brigando com os seus demônios e mostrando, como sempre, que não tem perfil para ser capitão. E Vargas, engolido pela ansiedade e pelo medo de errar, vem perdendo chances incríveis e a Massa não perdoa.
O Rei dos paradoxos voltou a campo e diante do Botafogo e outra vez jogou muito mal, o que não retira os méritos do alvinegro carioca que foram muitos.
Enquanto o Botafogo gastava segundos para sair de sua defesa e chegar à área atleticana, praticando um jogo rápido, vertical, de muita intensidade e competitividade, o Galo voltou a ser aquele time sem inspiração, burocrático, lento, modorrento, de baixa energia e sem vigor. Dinâmica zero.
De um lado, os jogadores do Botafogo disputavam as jogadas com muita fome, se movimentavam continuamente, sempre buscando receber a bola em movimento, se antecipando constantemente e não dando aos atleticanos a chance de tomar a iniciativa.
De outro, os jogadores do Atlético, ora indecisos, ora encaixotados ou escondidos atrás do seu marcador, quase sempre esperavam a bola no pé e davam a iniciativa aos botafoguenses. E, por isso, não conseguiram produzir nada coletivamente. Ninguém se destacou no time atleticano. Lemos foi apenas quem menos errou.
Diferentemente do jogo contra o Alianza pela Libertadores, o meio de campo atleticano não funcionou. E os jogadores que entraram durante a partida pouco acrescentaram. Os desajustes táticos, a impotência ofensiva, a incapacidade criativa e os erros defensivos individuais e coletivos são claramente sub-produto da postura equivocada do time atleticano em campo e, claro, da cabeça bastante dançada de vários jogadores.
Onde foi parar a identidade competitiva mostrada diante dos peruanos? O que aconteceu com a intensidade, com a organização tática e com o jogo coletivo exibidos à larga diante do Alianza? Por que a tempestade emocional que entorpecia o time e, com algumas honrosas exceções, parecia um fenômeno em extinção, voltou a se abater sobre a equipe atleticana?
Futebol não é mesmo uma ciência exata. Contra o Alianza de Lima Coudet foi a campo com a conta do chá e brilhou. Contra o Botafogo, mesmo tendo um banco mais encorpado e jogadores descansados, o treinador atleticano teve problemas e não foi feliz.
É verdade que todo processo evolutivo tem idas e vindas, avanços e retrocessos. Mas, o que está acontecendo com o Atlético vai além do normal.
Dirigentes, comissão técnica, treinador e jogadores têm a obrigação de buscar entender porque, depois de um jogo muito bom, de alta intensidade e muita competitividade diante do Alianza Lima, o Atlético, voltou a praticar aquele jogo irritante, ruim e sem a pegada necessária para se ombrear e superar o adversário.
Essa irregularidade e essa brutal diferença de postura e de dinâmica de um jogo para o outro têm causa. E é isso que o Atlético tem que identificar e corrigir. Ainda não é terra arrasada e nada está definitivamente perdido.
Mas, se algo não acontecer, i.e., se o clube não identificar na raiz os problemas e não trabalhar a cabeça dos atletas, levando-os a entrar em campo e encarar todo e qualquer adversário, independentemente da competição, com espírito competitivo, intensidade do jogo e autoestima alta, o prognóstico é ruim e um desastre pode acontecer ainda nesta temporada.
Ou seja, é preciso trabalhar internamente na busca da regularidade, da confiança e do espírito competitivo que o futebol de hoje exige de quem quer ser vencedor. Mas, o que estaria levando o time atleticano, independentemente do onze escalado, a oscilar tanto e a ser por vezes nada competitivo?
Hulk que vem atravessando sua pior fase como jogador do Atlético, cabeça visivelmente ruim, manifestou publicamente o seu desconforto em relação ao rodízio que vem sendo efetuado por Coudet. Seria isso de fato o fator determinante da irregularidade atleticana?
Em 2021 Hulk deu um choque de realidade em Cuca e no comando do futebol alvinegro. Deu no que deu. Um ano vitorioso e inesquecível. Agora, por razões inteiramente diversas e em condições objetivas distintas, Hulk dá publicidade a um desconforto que provavelmente não é apenas dele. Jogar de costas para zaga para muitos jogadores não é mesmo uma boa.
Para muitos, o artilheiro atleticano foi infeliz porque poderia estar dando a entender que o grupo não está fechado com o treinador e, assim, alimentaria o pernicioso fora Coudet. Entendo que esta não foi a intenção do craque, mesmo porque, segundo ele próprio admitiu, ele e os companheiros teriam apoiado o treinador após aquela emblemática e explosiva entrevista.
Hulk, que dentro de campo tem abusado das escolhas ruins, pode, fora das quatro linhas e, mais uma vez, estar criando um diferencial que pode fazer do restante dessa temporada algo também extraordinário para o Galo mais querido e mais famoso do mundo. Mas, dependendo do que acontecer daqui em diante, também pode estar fazendo o caldo atleticano entornar de vez.
Ainda que em várias situações o treinador seja forçado a poupar este ou aquele atleta em razão da maratona de jogos e deste calendário maluco ou a mexer no time por razões táticas ou devido a alguma suspensão, rodar jogadores pode sim ser um tiro no pé se algum atleta for continuamente escalado fora de sua zona de conforto ou para exercer funções que fogem inteiramente de suas características, o que obviamente afetaria o seu rendimento de forma negativa. Cada atleta tem a sua velocidade própria de assimilação de um conteúdo tático.
Mas, rodar o time pode também trazer também benefícios significativos ao trabalho e melhorar o rendimento individual e coletivo do onze que for mandado a campo. Tudo dependerá de um bom diálogo entre o treinador e os jogadores e da manutenção de um bom ambiente interno, primeiros passos fazer crescer o futebol e a capacidade de entrega de cada um dos atletas. Hulk, inclusive, defende este tipo de conversa como início da arrancada.
O rodízio em si nunca foi o problema central do Atlético. Diante do Alianza, por exemplo, Igor Gomes que para muitos não valia nada e nem vinha sendo escalado de cara, entrou desde o inicio e decidiu o jogo, enquanto o Edenilson e Hyoran, preferidos da maioria dos torcedores e dos comentaristas não começaram jogando. Contra o Botafogo, Edenilson e Hyoran voltaram a ser titulares como muitos defendiam e não renderam o que deles se esperava.
O que está no entorno do rodízio como alguma eventual variação tática ou a atribuição de alguma função incompatível com as características de algum jogador é que, dentre outros fatores, podem estar na raiz da irregularidade do time atleticano.
Duas coisas são certas: primeiro, o time vinha de 6 partidas em evolução sim, ainda que estivesse como continua longe de ser brilhante e de encher os olhos de sua torcida.
E, segundo, com rodízio ou sem rodízio, a preparação de um elenco para encarar a dinâmica do futebol atual, disputando mais de uma competição simultaneamente e enfrentando um calendário perverso e viagens longas e, muitas vezes, de logística complicada e pesada, vai muito alem do condicionamento físico e dos esquemas táticos. A preparação mental e emocional tornou-se no futebol moderno um dos principais elementos de trabalho de uma equipe.
O Rei dos paradoxos, de virada de chave em virada de chave, ora vai jogar bem e fazer o atleticano sonhar alto, ora vai jogar mal e fazer cada um dos galistas apaixonados ter pesadelos e até imaginar um desastroso rebaixamento. É 8 ao 80. É tudo ou nada.
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