Rafael Marques revela treta entre Ronaldinho e Cuca que quase mudou os rumos do Galo
Por: Hugo Fralodeo
Em junho de 2012, um helicóptero parava a Cidade do Galo. Dentro dele, um dos maiores nomes da história do futebol mundial. Ronaldo de Assis Moreira abraçava o projeto de Alexandre Kalil para se tornar a grande cereja do bolo do time de Cuca que viria a ser marcado como o elenco libertador.
A história já está eternizada e continuará sendo contada de geração em geração. Porém, hoje a passagem é sobre um evento que poderia ter alterado todo o curso do trem da história desse time, o que teria impactado em um final completamente diferente para o Galo.
Quem faz a vez de ‘Roberto Carlos Ramos’ é o ex-zagueiro Rafael Marques, que estava lá para ter a história para contar. Ao Charla Podcast, o zagueiro que vestiu o Manto nos tempos de Ronaldinho, deu detalhes sobre a confusão entre Cuca e Bruxo, que quase culminou na saída do craque.
Como um bom contador, Rafael Marques prepara o terreno e revela que, após uma briga entre o técnico e o craque, às vésperas do jogo decisivo contra o Fluminense, em 21 de outubro de 2012, Ronaldinho abandonou a concentração na Cidade do Galo:
“Vou contar uma história que eu não sei se algum dos jogadores daquele grupo já contou. É uma coisa que resume bem o Ronaldinho no Atlético. Nós tivemos um problema no grupo, com o próprio Ronaldinho, oito meses (na verdade, pouco mais de quatro) depois (dele ter chegado). Um problema do Ronaldinho com o Cuca. Os dois tretaram e o Ronaldinho simplesmente pegou o carro e foi embora para casa na véspera do jogo contra o Fluminense, no Independência, que decidiria o primeiro colocado (do Brasileirão)”.
Segundo o ex-zagueiro, o grupo de jogadores, após o espanto ao receber a notícia, se mobilizou para contornar a situação, já que Ronaldinho era o principal fator de desequilíbrio do time:
“A gente tá no rachão de manhã, o Cuca reuniu o grupo e explicou o que aconteceu: ‘o Ronaldinho tomou a decisão de ir embora, não aceitou a punição, vamos seguir.’ Todo mundo: ‘O quê?!’ O rachão começou, aquela tensão, sem o homem, o homem tinha ido embora…. A gente concentrava na sexta e o jogo era domingo, eu odiava isso. Acabou o rachão, então o capitão Réver, o Leonardo Silva, o Victor e eu nos reunimos e falamos assim: ‘Gente, nós temos que resolver isso, como vamos resolver? Vamos todo mundo na sala do Cuca conversar com ele pra poder resolver. A gente não pode decidir sem ele (Ronaldinho)‘. Era impossível, o Ronaldinho tava fazendo coisas dentro de campo que eu duvidava. Nós víamos que ele tinha prazer, ele tava feliz, a mãe dele tinha um problema, teve um jogo no Independência que a torcida abraçou ele, ele emocionou, chorou pra caramba. Então, assim, a gente precisava demais dele, independente de qualquer circunstância naquele momento”.
Então, Rafael conta que os líderes do elenco conseguiram a volta de Ronaldinho para conversar com Cuca, na presença do grupo e do presidente Alexandre Kalil:
“Conversamos com o Cuca, e ele falou: ‘Olha, tá bom, mas tem que ser assim, assado…’ O Leonardo Silva falou pra ligarmos pro Kalil vir conversar também. A gente conseguiu falar com o Ronaldo de tarde, já estava todo mundo nos quartos e o Ronaldo voltou pra concentração. Na salinha, no auditório, tava o Ronaldo, o Cuca e o Kalil. O Cuca começou a falar, botar tudo pra fora, coisas pesadas do Ronaldo, e o Ronaldo sempre calado. O Ronaldo não era de muitas palavras”.
No ápice do conto, após o desabafo de Cuca, a bronca do “papai” Kalil em Ronaldinho:
“Aí o Kalil tomou a palavra e falou: ‘Ronaldo, o treinador falou, eu entendi tudo, ele tem razão em algumas coisas, em outras coisas não, mas eu sou o presidente e quem manda aqui sou eu. Eu lembro o dia que eu peguei o avião e fui até Porto Alegre conversar com você e seu irmão. Eu olhei nos seus olhos e falei na sua cara: você quer vir pro Atlético pra jogar futebol ou fazer as coisas que você faz? E você assumiu o compromisso comigo. Não foi com o Atlético, não foi com o Cuca, foi comigo. Que você iria fazer o melhor, tudo que eu te pedisse. E eu tô aqui hoje falando na frente de todo mundo essa história pra mostrar pra todo mundo que você tem um compromisso comigo. Hoje, o seu compromisso não é só comigo, é com o grupo e com o Atlético. O Atlético precisa de você e você precisa do Atlético. Ou você muda agora, ou então a gente faz aquilo que combinamos, você pega suas coisas e segue seu caminho’.”.
Em tom mais bem humorado, o alívio cômico, Rafael Marques relata a barganha do Bruxo para diminuir o tempo de concentração:
“O Ronaldo falou: ‘Quero pedir desculpas, eu realmente errei… eu concordo com algumas coisas. Pô, concentrar sexta-feira pra jogar domingo, mais de 72 horas dentro duma concentração, não consigo. Realmente me dói, é ruim pra mim, se puder melhorar alguma coisa, eu vou tentar me adequar ao máximo. Eu não consigo chegar 10 horas da noite…. Ou então no sábado, de manhã eu venho aqui, o jogo é só 4 horas da tarde, chego aqui 10 horas da manhã no sábado, tomo café, faço rachão…’.”.
Para arrematar, o ex-zagueiro joga alguns ex-companheiros na “fogueira” para ilustrar a “bagunça organizada” regida por Cuca, que culminou no título da Libertadores:
“A gente só chegou aonde chegou por causa dessa reunião. O Cuca era muito pulso firme e batia o pé de concentrar na sexta-feira porque o nosso grupo era arisco. Eu não, eu era casado, tava tranquilo. Pô, pega o grupo aí…. É por isso que o Cuca brigava pra concentrar sexta-feira. Não tinha como. (…) O Tardelli era tranquilo, o Bernard, mas tinha o Jô, Ronaldinho, Danilinho…. Mas tinha um comprometimento muito grande o grupo, depois que a gente entrava na Cidade do Galo, que a gente se concentrava, o grupo era muito focado. Isso que dava respaldo para eles fazerem aquilo. Futebol é isso, não tem jeito, você tá ganhando, irmão…. A hora que começar a perder, você se resguarda. Se tu puder se resguardar na vitória, melhor ainda, tu vai render muito mais. Mas a gente ganhava, o grupo correspondia. Fomos jogar um jogo contra o Sport na Ilha do Retiro, o Sport tava há oito, nove jogos sem perder. Calor de 40 graus, os caras deixaram a grama (crescer) dois dias, metemos 4×0. Aí tu vai falar pros caras: ‘Fica trancado no hotel’?”.
O final dessa história, como já sabemos, contamos e dissemos, todos já conhecem. Aliás, daqui pouco mais de seis meses, esse gran finale terá seu décimo aniversário.
E eu, que só fui um comunicador da história contada por Rafael Marques quase me esqueci de contar a parte que me cabia…. O Galo ganhou bonito aquele jogo no Independência. Ronaldinho deu show, duas assistências e uma festa em campo. Gol do Léo Silva…. Até arrepia….



