Foto: Montagem: Galo Acadêmico / Reprodução e Arquivo pessoal
Por: Thiago Florêncio e Betinho Marques
A Data Fifa esvaziou o calendário e deixou o atleticano alguns dias sem jogo para ver, sem escalação para discutir, sem juiz para xingar. Quem esperava uma semana de marasmo se enganou. Fora das quatro linhas, o Galo anda produzindo assunto como poucas vezes se viu.
A Galeitura, clube de leitura nascido da torcida depois das resenhas de Gustavo Scarpa, segue crescendo e já ganhou até campanha de doação de livros com o Instituto Galo. E outro projeto merece entrar nessa roda: o Galo Acadêmico, que junta em um só lugar todos os trabalhos acadêmicos já realizados, que têm como tema o Atlético.
Um acervo para quem estuda o Galo
A ideia do Galo Acadêmico é simples de explicar e trabalhosa de executar. O projeto é um repositório digital de memória, organização e divulgação científica sobre o clube. A proposta é montar um acervo coletivo que sirva de referência para pesquisadores, para torcedores e para qualquer pessoa curiosa sobre a história alvinegra.
Por trás dele está Luisa Almeida, mestra em Comunicação pela Universidade Federal de Minas Gerais. Hoje ela mora em Ohio, nos Estados Unidos, onde faz doutorado na Kent State University. A distância não diminuiu o vínculo. De lá, Luisa cataloga todo trabalho acadêmico que tenha o Atlético como tema: artigos, resenhas, capítulos de livros, Trabalhos de Conclusão de Curso, dissertações de mestrado e teses de doutorado.
Quem já tentou encontrar uma monografia antiga sabe o tamanho da tarefa. Esse tipo de produção costuma ficar espalhado em bibliotecas de universidades diferentes, em bancos de dados que pouca gente conhece, às vezes em uma pasta esquecida no computador do próprio autor. Reunir esse material exige paciência de arquivista e uma boa dose de paixão pelo clube.
Como navegar pelo acervo?
O site se divide em quatro frentes. Na página Repositório, o visitante pesquisa as produções catalogadas usando filtros por autor, tema, tipo de publicação, instituição e ano. Dá para ir direto ao TCC que analisou a Massa nas arquibancadas ou à tese que estudou um período específico do clube.
O Acervo Multimídia guarda o material que acompanha as pesquisas: documentários, reportagens, entrevistas, podcasts e vídeos. É ali que o trabalho acadêmico sai do papel e ganha som e imagem.
Os Indicadores Acadêmicos trazem estatísticas, gráficos e análises sobre o próprio acervo. Com eles, o leitor consegue enxergar como a produção científica sobre o Atlético evoluiu ao longo do tempo, quais temas aparecem com mais frequência e de quais instituições saem esses estudos.
Por fim, os Eixos Temáticos propõem outro caminho. Em uma curadoria feita por assunto, pesquisas que conversam entre si aparecem lado a lado, mesmo quando vêm de áreas diferentes do conhecimento. Um historiador e um comunicólogo, por exemplo, podem ter olhado para o mesmo Galo de ângulos opostos, e o eixo coloca os dois frente a frente.
O projeto está em movimento. Luisa contou que o site do Galo Acadêmico passa por uma reformulação e que uma nova versão está em construção.
O Galo também está na natureza
A relação entre o Atlético e a ciência tem pelo menos um capítulo famoso fora das bibliotecas. Em 2009, o biólogo atleticano André Nemésio encontrou na Mata Atlântica uma espécie rara de abelha e resolveu batizá-la em homenagem à torcida que ele considera a mais apaixonada do Brasil. Nasceu assim a Eulaema atleticana.

Três anos depois, Ronaldinho desembarcou em Belo Horizonte e vestiu a camisa 49 na primeira temporada pelo clube. Nemésio classificou mais uma espécie e deu a ela o nome de Eulaema quadragintanovem. Em latim, quadraginta novem quer dizer quarenta e nove. Foi o jeito que o cientista encontrou de eternizar o Bruxo na taxonomia.
Com as duas descobertas, o Atlético se tornou o primeiro clube a ser homenageado em uma descrição biológica. O Galo tem camisa, bandeira, hino e, desde então, duas abelhas.
Paixão que produz conhecimento
A torcida do Atlético sempre foi lembrada pelo barulho, pela fidelidade nas fases ruins, pela capacidade de lotar estádio em qualquer circunstância. Iniciativas como o Galo Acadêmico, a Galeitura e as abelhas de Nemésio mostram um lado menos falado dessa relação. O atleticano também pesquisa, lê, escreve, cataloga e dá nome a espécies.
Isso tem peso. Clube de futebol é patrimônio cultural, e patrimônio só se preserva quando alguém se dispõe a organizar a memória. Boa parte da história do Galo ficou por décadas guardada em recortes de jornal e na lembrança de quem viveu cada época. Quando uma pesquisadora decide reunir cada tese, cada dissertação e cada TCC sobre o clube, ela garante que o próximo estudante não precise começar do zero.
A bola volta a rolar em poucos dias. Até lá, o torcedor atleticano segue pautando conversa em sala de aula, em clube de leitura e até em laboratório de biologia.
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