Quando o problema não cabe em um nome só
Foto: Pedro Souza / Atlético
Por: Diego Callegary
Quando o futebol não funciona, a explicação quase sempre segue o caminho mais curto: alguém errou. É confortável, rápido e gera engajamento. O problema é que esse atalho raramente leva ao diagnóstico correto. O modelo de jogo passa ileso, a estrutura quase nunca é questionada e a discussão se limita ao personagem da vez.
Cria-se, assim, um ambiente em que o debate gira em torno de nomes, como se os jogadores atuassem em um vácuo tático. Não atuam. Cada decisão em campo é consequência direta — ou ausência — de um plano. E é justamente nesse vazio que surgem as comparações mais barulhentas.
Quando o brilho atrapalha mais do que ajuda
Parte da torcida não consegue entender por que Igor Gomes segue como titular enquanto Alexsander não. A lógica parece simples: quem tem mais qualidade técnica deveria jogar. O problema é que futebol não se organiza por ranking de habilidade, e sim por coerência funcional.
Alexsander entrega mais recursos individuais, mas seu jogo exige bola, tempo e protagonismo. Em um time que já sofre para se organizar, isso cobra um preço alto. A condução se alonga, a decisão atrasa e o coletivo perde ritmo. A jogada até sobrevive; o sistema, não.
Igor Gomes não encanta — e talvez seja exatamente por isso que jogue. Participa, aproxima, ocupa espaços intermediários e aceita ser parte do mecanismo, não o centro dele. Não resolve sozinho, mas ajuda o time a existir. Em um cenário de baixa fluidez, a escolha deixa de ser estética e passa a ser prática. Pode não agradar, mas responde ao jogo real.
Essa discussão abre espaço para outra obsessão recorrente: a exigência de protagonismo onde ele não é necessário.
A paranoia do protagonista invisível
Criticar Alan Franco por “não aparecer” diz mais sobre como se consome futebol hoje do que sobre seu desempenho. Parece que só é bom quem se expõe, quem surge no lance decisivo, quem vira recorte. Volantes, nesse contexto, viram suspeitos naturais.
Franco nunca foi esse jogador. Já atuou como segundo volante, saiu, voltou, se adaptou e hoje ocupa a função de primeiro por pura ausência de alternativas. Não é o cenário ideal, mas é o que sustenta minimamente a estrutura. Em modelos agressivos, com muita gente à frente da bola, é ele quem corre para trás, fecha espaços, cobre laterais e ainda inicia a saída. Lidera, comunica, pede a bola, cobra companheiros e incomoda a arbitragem. Não vira highlight, mas mantém o time de pé.
A mesma lógica aparece quando a análise avança para a última linha.
Quanto mais exposto, maior a chance de errar
Júnior Alonso se tornou alvo frequente, mas quase sempre sem contexto. Atua ao lado de zagueiros com limitações claras na construção e acaba sendo o responsável quase exclusivo pela saída de bola. Quanto mais participa, maior a chance de errar — matemática simples, não opinião.
Além disso, cobra-se dele um perfil que nunca teve. Alonso não é zagueiro perseguidor, de bote agressivo. Sempre foi de zona, leitura e posicionamento. Esperar que ele mude sua essência para compensar falhas coletivas não é análise, é transferência de responsabilidade.
Curiosamente, enquanto alguns são criticados por aquilo que não entregam, outros começam a ganhar espaço por algo mais simples — e talvez mais raro.
Atitude que organiza
Alguns jogadores transformam presença em organização. Renier assume riscos, pede a bola e articula o ataque, enquanto Victor Hugo, na estreia, mostrou dinamismo e intensidade, oferecendo soluções simples em meio ao improviso do time.
Renan Lodi cumpre papel semelhante no lado esquerdo: se posiciona corretamente, aproxima setores e cria superioridade numérica, trazendo equilíbrio. Do outro lado, Preciado surge como alternativa confiável na lateral direita, oferecendo cobertura defensiva e participação ofensiva.
Essa combinação reduz a imprevisibilidade e fortalece a estrutura do time — mas, se o meio de campo hesita, qualquer tentativa de organizar o jogo rapidamente se perde. E é justamente nesse ponto que surge o excesso de preciosismo.
Da pressa em pensar demais ao erro garantido
Quando o coletivo não funciona, até o toque mais simples se transforma em exagero. Passes demorados, decisões arrastadas e tentativas de resolver tudo individualmente denunciam que o time ainda não aprendeu a se mover como um conjunto.
Em muitos momentos, quando a bola chega em Maycon ou Alan Franco, os apoios não aparecem, as linhas se distanciam e a fluidez desaparece. Cabe a Maycon, como meia canhoto e referência técnica, assumir os lançamentos longos — não por virtude, mas por necessidade. O que deveria ser construção se transforma em fuga da pressão.
No ataque, a situação não melhora: sem clareza sobre a função do centroavante — se deve sustentar, abrir espaço ou atacar diretamente — os pontas e meias ficam presos em um vai-e-vem sem objetivo. O que poderia ser construção se transforma em improviso previsível, e o toque a mais, que deveria agilizar, apenas confirma a confusão.
Essa hesitação coletiva leva direto ao próximo ponto: quando improviso vira método.
Improviso não é modelo
O discurso fala em jogo propositivo, mas o elenco foi montado à base do encaixe ocasional. Volantes adaptados, zagueiros expostos, laterais sobrecarregados e atacantes sem função clara. Improviso vira método.
Hulk, usado constantemente de costas para o gol, absorve contato e se desconecta do jogo. Ele rende quando recebe de frente. Para isso, precisa de uma referência clara — Mateo Cassierra — capaz de sustentar a última linha, fixar zagueiros e abrir espaço. A ideia existe. O plano, não.
Quando a improvisação domina, sobra a todos a missão de entender o que realmente importa: função, papel e execução.
Culpa de quem? Ah, sempre alguém…
Mais uma vez, o espetáculo se repete: jogadores erram, se expõem e pagam a conta de uma equipe que ainda não aprendeu a se organizar. A indignação é natural — e necessária. O problema não é apenas a estrutura, mas a incapacidade de cada atleta em compreender e cumprir sua função dentro dela.
O foco deveria estar menos em nomes ou em desenhos táticos bonitos e mais em quem organiza, sustenta, cria espaço e finaliza. Quando cada jogador entende seu papel, cada erro faz sentido dentro do contexto e cada acerto ganha relevância. É nesse ponto que torcedor e time realmente se encontram: na clareza do que cada um deve fazer, não apenas no que todos esperam da instituição.
O talento sozinho não garante nada.
A coerência individual dentro do coletivo é que transforma jogo em resultado — e frustração em aprendizado.
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