Cabeça ruim, um fenômeno de causas naturais ou produzidas?
Por: Max Pereira
As atuações, ora irregulares, ora bastante ruins, do time atleticano desde as conquistas do ano mágico de 2021 têm provocado no mundo alvinegro as mais diversas teorias e elocubrações, algumas conspiratórias e outras tantas dignas de roteiros de Hollywood, buscando todas explicar ou simplesmente entender o que estaria acontecendo com o Atlético.
Uma coisa me parece mais do que clara: a cabeça ruim e dançada de praticamente todos os jogadores, salvo, em alguns momentos, pouquíssimas e honrosas exceções, tem sido um dos principais sintomas do que pessoa estar acontecendo nos interiores do clube, que até o mais incauto dos observadores consegue depreender a partir do que o time rende e não rende dentro de campo.
Everson é um exemplo clássico. Depois de um início inseguro e sob os olhares desconfiados de grande parte da Massa e de ter evoluído consideravelmente a ponto de se tornar esteio da defesa atleticana ao salvar o Glorioso diversas vezes com defesas importantes e muito difíceis, o goleirão atleticano volta a gerar enorme desconfiança no seio da torcida, a ponto de várias vozes começarem a protestar pela sua saída do time e até mesmo do clube. Será que Everson ficou mascarado como afirmam e acreditam vários torcedores?
Talvez tomado por uma confiança excessiva, Everson revelou-se falastrão durante os jogos e, com isso, pode ter comprometido a sua concentração. Frequentemente as câmeras da televisão o flagram fazendo caras e bocas, levando o torcedor a se antipatizar com ele. Isso talvez o tenha levado a perder o foco e as falhas começaram a surgir. Everson passou de uma feliz exceção ao lugar comum dos jogadores contestados e massacrados.
Em meio a um bando de jogadores perdidos e angustiados, independentemente de qual onze entre em campo desde a temporada passada, Mauricio Lemos vem se sobressaindo e se tornando uma das mais agradáveis surpresas atleticanas dos últimos tempos. A exemplo de Everson, o zagueirão uruguaio chegou sob uma imensa desconfiança do torcedor alvinegro. Dono de uma personalidade absurda, Lemos se impôs, se fez respeitar e é hoje o único jogador que consegue encher os olhos da Massa.
Até mesmo o incrível Hulk, artilheiro decisivo e senhor de marcas emblemáticas, vem se mostrando confuso e improdutivo dentro de campo. Carregando uma incômoda e inadequada braçadeira de capitão, função para a qual não tem perfil, o ídolo atleticano tem se perdido em bate bocas intermináveis e indesejáveis com a arbitragem e com os adversários, o que o faz antipatizar-se com a primeira e tornar-se refém das provocações dos segundos.
Em consequência e, a exemplo de Everson, embora por razões inteiramente diversas, Hulk também tem perdido foco, errado passes em profusão, abusado das escolhas erradas e se deixado marcar com tremenda facilidade.
Mas, no futebol brasileiro dos dias atuais nenhum time sobrevive de exceções. E, se a cabeça dançada é um fenômeno coletivo como tudo indica, resta induvidoso que existem problemas intramuros do clube que precisam ser diagnosticados e resolvidos. Afinal, como determina uma das leis da Física, não existe efeito sem causa. Até mesmo o acaso surge de momentos e situações fortuitas que conspiram para a sua materialização.
Aqui abro um parêntesis mais do que necessário para lembrar que as soluções para os problemas do Atlético que recolocariam clube e time nos trilhos jamais podem ou devem se apoiar no gostar ou no não gostar desse ou daquele atleta, nas preferências pessoais ou emocionais seja de dirigentes, treinadores, funcionários, imprensa e de torcedores, em discursos de ódio, em interesses que não sejam do clube, respeitados os direitos dos atletas, treinadores e demais funcionários, na priorização sem medir as consequências da redução da folha de pagamentos e nos interesses dos empresários e agentes.
Ainda que por razões plenamente justificáveis não se possa colocar no horizonte imediato do clube a conquista de títulos de ponta é preciso garantir que os passos da agremiação se deem à luz de um comando profissional que tenha a expertise necessária em relação aos meandros do futebol e, em consequência, tudo siga um planejamento adequado. Se dentro de campo, não se monta um time de um dia para o outro, fora das quatro linhas tempo, trabalho e planejamento são indispensáveis para produzir resultados de excelência.
Nem sempre querer é poder. Essa frase se aplica totalmente ao futebol. Ao time em geral e aos jogadores particularmente quando se observa que o rendimento ruim não deriva de má vontade ou de deficiência de caráter de A ou de B, como sempre alude e esbraveja o torcedor atleticano e, sim, de sua incapacidade momentânea por razoes diversas de jogar o futebol que se sabe que aquele ou aqueles atletas pode(m) entregar.
Essas razões podem ser inadaptabilidade ou a lenta assimilação de alguns jogadores ao esquema de jogo determinado pelo treinador, o que é natural e individual, a incapacidade ou dificuldade do técnico de “ler” as características dos atletas que ele têm à sua disposição e, portanto, de ajustar as suas ideias de jogo ao elenco de modo a explorar o melhor possível as potencialidades de seus atletas, ao grupo enxuto e/ou desequilibrado e, portanto, inadequado para a missão de disputar três competições de ponta de características distintas e que provocam muitos desgastes e exigem muita concentração e preparo especializado do grupo.
De há muito o futebol plástico, lúdico e essencialmente técnico desapareceu do cenário brasileiro, dando lugar a um futebol cada vez mais físico, tático e principalmente mental. Não tem ninguém mais bobo no futebol de hoje.
Muitos clubes considerados pequenos ou médios, de camisa menos pesada que os chamados gigantes já usam ferramentas semelhantes a estes últimos no preparo de seus jogadores, contam em seus elencos com atletas rodados e experientes e seus treinadores quase sempre colocam as suas equipes para jogarem fechados, atrás da linha da bola, como fez o Vasco contra o Atlético depois de conseguir uma insuspeita e feliz vantagem de 2 gols logo nos primeiros 10 minutos de jogo.
Assim, como vários jogadores dão a a falsa impressão de que não querem nada com nada, que estão jogando com displicência em razão de alguma falha de caráter, o time atleticano passou para alguns e talvez para o seu próprio treinador, a falsa sensação de uma atuação dominadora, convincente, inexplicavelmente não traduzida em um resultado melhor. O Atlético jogou na base da água mole em pedra dura tanto bate até que a água acaba. E por que acabou?
Os esquemas táticos hoje em dia são cada vez mais engessadores e, com isso, os jogadores talentosos tornam-se cada vez mais raros e, quando estão em campo, são os que mais sentem dificuldade de jogar o seu futebol. Não à toa, vários clubes brasileiros têm buscado em outros países sul-americanos, particularmente na Argentina, um camisa 10 que de há muito já não é mais formado ou valorizado nas suas categorias de base. Ironia, não?
Os jogos atualmente se resumem a tentar abrir espaços nos ferrolhos armados pelos adversários ou em tentar aproveitar algum espaço fortuita ou descuidadamente deixado pela equipe contrária. É o chamado ultrapassar linhas.
Gerson, o Canhotinha de Ouro, um dos maiores armadores e construtores de jogo do futebol mundial de todos os tempos, já deu a fórmula em seu linguajar simples e direto que até os leigos em futebol conseguem entender: ˜se não der por aqui, vamos por ali”.
Trazendo tudo isso para o Atlético, não é muito difícil perceber que um conjunto de variáveis está se interagindo de forma negativa na preparação e, em consequência no rendimento da equipe fora de campo.
Se Coudet tem muita razão em reclamar da falta de opções que um elenco curto lhe impõe, ele também precisa perceber que, de sua parte, é necessário reconhecer os erros que foi levado a cometer e a importância de discutir internamente com seu grupo as soluções que se impõem para que o onze colocado em campo possa começar a render um futebol convincente e, de passo a passo, evoluir o máximo possível dentro das limitações que um elenco reduzido impõe.
O sempre lembrado e tomado como referência grupo campeoníssimo de 2021 não existe mais. Como em qualquer grupamento social, profissional ou familiar, as defecções e as chegadas não deixam imunes ou ilesas a organização seja ela qual for, mesmo porque os seus paradigmas são inevitavelmente mudados. Claro, nos clubes de futebol não é e não pode ser diferente.
Além disso, não basta após permitir a saída de 7 ou 8 atletas, fazer chegar 8 ou 9 “substitutos”. As aspas aqui são necessárias porque nenhum jogador é substituto ideal de nenhum outro, vez que cada atleta tem características próprias, é único no universo do futebol. Ninguém é igual a ninguém. Daí, basta sair um e chegar outro, o time e o grupo serão outros.
E, como cada jogador tem a sua velocidade própria para assimilar as ideias de jogo de seu novo treinador, para se adaptar ao novo clube e aos novos companheiros, à carga e aos tipos de treinamentos, à cidade, ao Estado, ao clima e alguns ao país, à alimentação, à língua e aos costumes, o que inclui suas famílias, fica claro que o trinômio tempo, trabalho e planejamento são essenciais na busca da excelência e dos resultados colimados.
O elenco atleticano além de temerariamente reduzido, mostra-se gravemente desequilibrado em vários aspectos. Faltam jogadores de características diferentes dos que já tínhamos e ficaram, dos que chegaram e de muitos que saíram. Falta também um cuidado especial com o lado mental do grupo, responsável pela intenção, pela vibração e pela postura do time que devem ser uniformes, possibilitando à equipe que estiver em campo impor ao seu jogo a intensidade e o nível de competitividade que as partidas de hoje estão exigindo.
Em 2021 Cuca só ganhou o que ganhou depois de um choque de realidade imposto por Hulk que, em uma entrevista, publicizou os problemas vividos pelo clube naquela época, o que provocou uma rápida e salutar reação dos atores então envolvidos na condução do futebol do Glorioso, principalmente o próprio treinador. O Atlético de 2023 também precisa passar por um choque de realidade, observadas as peculiaridades e as condições objetivas atuais.
Enfim, falta ao time atleticano atual alguém que tenha o perfil de capitão e outro alguém que chame o jogo para si e seja uma espécie de treinador de campo como foram, por exemplo, Jorginho para Leão, Cerezo para Barbatana e Procópio, Gilberto Silva, Valdo e Ramon Menezes para Levir Culpi, Ricardinho para Luxemburgo e R10 para Cuca. Ah! Falta, como vem ocorrendo há muito tempo, um projeto consistente de formação e de transição da base para o profissional.
A cabeça ruim e dançada dos jogadores atleticanos tem causas naturais e tem causas produzidas pela falta de um trato correto e adequado no futebol do clube que, nos dias atuais exige uma expertise que não se encontra em nenhuma outra organização, seja da iniciativa privada e do mundo corporativo, seja no universo público.
Hoje é Libertadores, domingo Mais uma vez o Brasileirão e na próxima semana novamente a Copa do Brasil. Além da necessária virada de chave de uma competição para outra, o Galo precisa urgentemente começar a virar a chave de suas estratégias, ações e políticas.
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