Se pode complicar, pra que simplificar, não é mesmo Atlético?
Por Max Pereira
“Tetra campeão”, gritaram noite de domingo afora milhões de vozes atleticanas espalhadas por esse mundão de meu Deus como dizia o velho e saudoso Belarmino, um galista apaixonado que morava prá lá dos grotões dessas Gerais e que nunca viu o seu Galo jogar ao vivo e a cores, mas que conseguia ver todos os jogos do Glorioso com a alma, aquecida e sacudida pela narrações incomparáveis de Jota Junior, Vilibaldo Alves e Willy Gonzer que faziam tremer, além do seu surrado coração preto e branco, o seu velho e indefectível rádio .
Tétrica é a história do Atlético. O Galo é e sempre foi uma fonte inesgotável de problemas e de crises. “O Atlético não precisa de inimigos”, dizia a velha Zulmira, aquela torcedora raiz do Galo mais famoso e mais querido do mundo que não entendia nada de futebol e, muito menos de organização e de gestão. Mas, tinha um feeling aguçado e enxergava onde muitos outros eram incapazes de ver.
O maior vencedor de títulos em terras mineiras, 48 vezes campeão do Estado, mais uma vez tetracampeão mineiro em uma sequência que deixa claro o seu protagonismo e sua hegemonia no futebol das Alterosas, vive, paradoxalmente e sem surpresa alguma até mesmo para o mais incauto dos observadores, mais uma de suas eternas e irritantes crises.
Está claro que existem problemas internos gravíssimos nos interiores do clube. É mais óbvio do que a obviedade que as coisas não andam bem intramuros do Atlético.
O desabafo de Chacho Coudet na entrevista coletiva que ele concedeu depois da derrota para o Libertad no Mineirão pela primeira rodada da fase de grupos da Libertadores 2023, deixa claro que algo de muito sério está acontecendo dentro do clube.
Apesar de estar cometendo erros e de estar tendo muita dificuldade em fazer o grupo assimilar suas ideias de jogo, Coudet não é o maior culpado e, muito menos o único, pelos problemas do Atlético que, claramente, estão se refletindo de forma bastante negativa no desempenho da equipe atleticana em campo. A pífia atuação diante da equipe paraguaia deixa isso muito claro.
O que aconteceu em 2022 com o Turco Mohamed e depois com Cuca e agora está acontecendo com Coudet, escancara que os problemas do clube vão muito além da capacidade do treinador, de resolvê-las, independentemente de quem ele seja.
Não sem razão as atuações, ora irregulares, ora bastante ruins, do time alvinegro na temporada passada suscitaram várias críticas e um rosário de especulações. Turco, frustrado e impotente, pegou o boné e foi embora. E Cuca voltou ao clube para a alegria de muitos e insatisfação de outros tantos. A emenda foi muito pior do que o soneto.
Não adianta trocar treinador e jogador, se os problemas não forem corretamente diagnosticados e eficientemente corrigidos. É claro que, dependendo da experiência e do carisma do profissional contratado os problemas podem ficar submersos durante algum tempo e o ambiente mascarado.
Mas, como sempre acontece em qualquer segmento da vida, familiar ou profissional, um dia os problemas sopitam e as crises explodem muitas vezes em uma intensidade incontrolável, produzindo resultados terríveis e incontornáveis.
Enquanto a torcida do Atlético se limitarem a xingar e a cobrar de forma irrefletida e passional apenas dos jogadores e dos treinadores e grande parte da mídia convencional e dos “influencers” nas redes sociais continuarem se recusando por razões diversas, criticáveis ou não, a analisar a fundo os problemas do Atlético, propondo soluções construtivas e eficientes e cobrando de quem deve ser cobrado, vai ser daí para pior.
Não me lembro de ver um treinador campeão tão constrangido. Impedido de falar depois do jogo e, de certa forma, até mesmo de comemorar. Elogiado por uns, massacrado por outros e fritado em óleo cru aqui e ali, Coudet tem mostrado que é um ser humano na acepção do termo.
Passional em alguns momentos, com irrefreável capacidade de se indignar e absurda coragem de cobrar o que considera justo cobrar, de reconhecer erros, de se desculpar e de mostrar que, apesar da justa insatisfação em relação ao descumprimento do que lhe teria sido prometido e às saídas sem reposição, enfraquecendo o elenco e reduzindo suas opções, ele ainda é capaz de continuar gostando do clube e do grupo que tem em mãos.
Não atoa, Coudet, irradiando sincera felicidade com a conquista do título mineiro, admitiu, sorrindo de orelha a orelha, que gostaria de continuar no clube, buscando novos títulos.
Talvez seja por isso que Rodrigo Caetano seja favorável à continuidade dele, mesmo porque as falas e as ações do diretor atleticano revelam posicionamentos e preocupações similares às do treinador em relação à estruturação do elenco e às saídas intempestivas de alguns jogadores, claramente prejudiciais ao trabalho. Aliás, já é consenso entre muitos e muitos atleticanos que se não fosse Caetano o Atlético estaria muito pior há muito tempo.
O abraço carinhoso e emocionado entre Caetano e Coudet, comemorando juntos o tetracampeonato atleticano, é autoexplicativo. Havia naquele abraço o claro e mútuo reconhecimento do trabalho que os dois vêm executando e das dificuldades, alguns naturais, outras não, que ambos vêm enfrentando.
O título mineiro veio em uma tarde/noite de muita superação. Se faltou um futebol coletivo e fluido, não faltou vontade. Embora não goste desta frase/mantra sou obrigado a dizer que esta final deixou claro que, se não for sofrido não é Atlético. Aliás, se pode complicar, prá que simplificar, não é mesmo, Atlético?
O jogo muitas vezes embolado pelo meio, os chutões, o excessivo número de passes errados, a falta de mobilidade e de deslocamento para receber a bola, a falta de velocidade e de intensidade em muitos momentos da partida, a extrema ineficiência na criação e a falta de um espírito coletivo de competição uniforme e regular que vêm demarcando as atuações do Atlético nestes primeiros meses do ano, são, ao que tudo indica, subproduto de uma soma de variáveis a saber:
– A baixa assimilação do grupo em relação às ideias de jogo de Coudet.
– Os problemas internos resultantes da política do pires na mão, do vender, vender e vender alicerçada nos recados e nas justificativas espalhadas na mídia tradicional e nas redes sociais que geralmente convulsionam o ambiente interno, porquanto acabam jogando a torcida contra os jogadores.
– A falta de preparação adequada para os jogos, a falta de um capitão adequado e, consequentemente, de uma liderança dentro de campo e a falta de alguém que, nos maus momentos, chame a responsabilidade para si e que saiba criar soluções de jogo diferentes, além, é claro, do incrível poder de decisão de Hulk.
E, se não bastasse tudo isso, com esse elenco temerária e perigosamente reduzido, o que para muitos atleticanos que têm se manifestado em suas redes sociais, evidenciou que o comando alvinegro trocou os resultados esportivos por qualquer resultado financeiro, a minha expectativa para o restante da temporada, se algo não for feito alterando drasticamente as políticas e a condução do clube, É EXTREMAMENTE BAIXA.
Os jogadores do Atlético querem perder os jogos? Entendo que não. A expressão de seus rostos, onde se destaca um misto de angústia, preocupação e impotência, indica o contrário. Aliás, a entrega e a capacidade de derrotar a si mesmos e aos seus problemas coletivos e individuais claramente demonstradas diante do América na etapa final quando o time se viu com um jogador a menos, deixou isso bastante claro.
Mais uma vez ficou óbvia uma falha grosseira na preparação para o jogo, o que deixou a falsa impressão de que eles não queriam jogar. Na realidade não conseguiam entregar o que gostariam ou o que o seu futebol prediz que poderiam jogar. Nem sempre querer é poder.
O Atlético precisa de uma correção de rota radical no que tange à sua condução, diretrizes e políticas. É preciso fazer um diagnóstico sério e profundo e, a partir dele, formular os prognósticos, fazer os ajustes e desenvolver o trabalho de recolocar o clube e o time nos trilhos. Tem muita coisa que precisa ser revista e repensada no Atlético.
Embora os jogadores se gostem, é inegável que o ambiente interno está dançado. Como sempre, muitas perguntas e poucas respostas.
O que estaria acontecendo? Por que alguns jogadores como Edenilson e Patrick perderam o tesão e a energia que mostraram em seus clubes anteriores? Por que o grupo não consegue mostrar um espírito de competição coletivo e uniforme de competição e muitos jogadores parecem dispersos, apáticos e/ou displicentes?
Será que eles desaprenderam de jogar futebol? Ou será que o grupo atleticano é mesmo um bando de gente sem caráter que só joga quando quer? E o que falar do comando central? Há falta de comando? Ou de expertise? Até que ponto Coudet deve ser cobrado e responsabilizado pelas atuações pífias do Atlético nesta temporada?
Até que ponto as políticas de venda do clube e o clima de insolvência constantemente repercutido pelo próprio Atlético na mídia e nas redes sociais estaria afetando o rendimento do time dentro de campo? As razões que levaram o Atlético a ter uma temporada irregular em 2022, pontuada por atuações sofríveis, seriam também as causas de tudo de ruim que vem acontecendo neste ano de 2023?
Uma coisa é certa: se não houver uma correção de rota radical na condução do clube o prognóstico para o restante desta temporada e das seguintes é mais que sombrio.
Para um time render e jogar em nível de excelência, observando todas as orientações de seu treinador, demanda, tempo, trabalho, organização e planejamento. Não se monta um time de um dia para o outro e nem os atletas conseguem assimilar as ideias de jogo de um treinador em um piscar de olhos.
Embora bons resultados e atuações convincentes e de alto nível sejam possíveis esporadicamente ou ao acaso porque futebol é jogo, o tempo é determinante para o sucesso pleno e consistente.
Um time pode até ser campeão em razão de fatores específicos, mesmo não estando bem e nem fazendo partidas que encham os olhos do seu torcedor, como aconteceu com o Atlético nesse Mineiro de 2023.
Dessa vez o time se superou e ao adversário, o talento individual de alguns jogadores como Hulk, Lemos, Zaracho e alguns outros prevaleceu e o caos venceu. Mas, na maioria das vezes o caos se sobrepõe ao talento e à vontade dos jogadores e à capacidade e ao trabalho do treinador.
Coudet sabe que a corda sempre arrebenta para o lado dos técnicos. A reação raivosa e agressiva para com ele de parte da torcida que esteve no Mineirão claramente, e não sem razão, o deixou bastante irritado. Embora se diga feliz no Atlético e não esconda que queira ficar, não será surpresa se o treinador deixar o clube.
Hoje, o Atlético inicia a sua jornada em mais uma Copa do Brasil e no domingo estreará no Brasileirão 2023. Eh, Atlético, vê se para de complicar. Já passou da hora de aprender a simplificar.
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*Este texto é de inteira responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, o pensamento do portal FalaGalo.