Galeitura: como o hábito de leitura de Scarpa virou movimento dentro da Massa Atleticana

Galeitura: como o hábito de leitura de Scarpa virou movimento dentro da Massa Atleticana

Foto: Montagem (Reprodução/ Canal do Scarpinha e Reprodução / Instagram Galeitura) 

Por: Thiago Florêncio

O hábito de leitura que Gustavo Scarpa cultiva na sua vida pessoal e no dia a dia do Atlético não ficou restrito ao vestiário. O meia recomenda livros ao grupo e resenha as próprias leituras nas redes sociais, e o costume atravessou Belo Horizonte até chegar a Ouro Preto, onde ganhou um desdobramento que nem o próprio jogador esperava.

Foi ali, inspirada também pelas resenhas de Scarpa, que a torcedora Carolina Marques, de 22 anos, aluna do curso de Letras da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), criou a “Galeitura”, clube do livro para reunir atleticanos interessados em ler e trocar impressões sobre os livros comentados pelo meia. A adesão foi imediata.

Em pouco tempo, o número de pedidos superou a capacidade do grupo, e a solução encontrada foi um formulário de manifestação de interesse, que em menos de 24 horas, alcançou quase 2 mil solicitações. Hoje, a Galeitura conta com cerca de 54 mil seguidores nas redes sociais, incomum para um clube do livro nascido de torcedor para torcedor.

Galeitura preciso criar um formulário de intenção para adimitir novos membros
Galeitura precisou criar um formulário de Manifestação de Interesse para admitir novos membros (Foto: Reprodução / X Galeitura)

Já o alcance das recomendações do meia alvinegro já ultrapassa a fronteira da torcida. A Morte de Ivan Ilitch, clássico do russo Lev Tolstói indicado por Scarpa, se tornou o livro mais vendido da Amazon, prova de que o hábito do jogador contagia leitores fora do universo alvinegro.

Em entrevista para o Fala Galo, Laís Barroso, uma das lideranças da Galeitura, contou como o grupo foi criado:

“A Galeitura nasceu de uma forma muito espontânea. O Scarpa já vinha postando resenhas e falando bastante sobre livros, isso começou a virar assunto e até meme entre os atleticanos nas redes. Muita gente começou a brincar sobre criar um grupo de leitores do Galo, e a Carol foi quem juntou essa galera e falou: “E se a gente realmente criasse um grupo chamado Galeitura? Ela criou e a coisa cresceu muito rápido”, explicou .

O que nasceu como brincadeira rapidamente mostrou outra cara. Segundo Laís, ficou claro que existia ali uma comunidade grande demais para continuar informal, e que dava para estruturar o projeto com um propósito maior do que reunir gente para comentar livro: incentivar a leitura e criar rede de apoio entre os participantes.

Um dos relatos que mais chamou atenção do grupo veio de pessoas que havia abandonado a leitura há anos e voltou a pegar um livro depois de entrar na Galeitura. Para Laís, isso resume o que o movimento tenta construir:

“Não precisa ser algo distante, elitizado ou restrito a quem já tem o hábito de ler. A leitura amplia repertório, cria novas perspectivas. E, quando isso acontece dentro de uma comunidade tão apaixonada como a Massa Atleticana, uma pessoa acaba incentivando a outra.”, informou. 

Um país que lê cada vez menos

A urgência do projeto tem respaldo em números. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, feita pelo Instituto Pró-Livro em parceria com o Ministério da Cultura, mostra um país de mais de 200 milhões de habitantes com apenas 93,4 milhões de leitores, gente que leu ao menos parte de um livro nos três meses anteriores ao levantamento. Isso equivale a 47% da população. Do outro lado, os não leitores somam 53%, mais da metade do país.

O levantamento aponta ainda um problema que vai além do acesso ao livro: parte da queda no hábito de leitura está ligada à dificuldade de concentração e de compreensão de texto, o que acende um alerta sobre o analfabetismo funcional.

Ler palavras e entender o que elas significam são coisas diferentes, e o Brasil perde terreno nas duas frentes ao mesmo tempo. Laís reconhece o tamanho do desafio e aposta na coletividade como resposta:

“A gente acha que o primeiro passo é tornar a leitura mais acessível e menos solitária. No nosso clube, por exemplo, dividimos a leitura em capítulos por semana e depois abrimos espaço para discussão. Às vezes uma pessoa não entendeu determinada passagem, outra teve uma interpretação completamente diferente, e essa troca ajuda todo mundo.”, contou.

O que um clube de futebol tem a ver com isso?

Futebol e literatura parecem mundos distantes, mas os dois lidam com emoção, memória, e principalmente, une pessoas. E é esse território comum que a Galeitura ocupa. A torcida do Atlético carrega uma intensidade que já é conhecida de quem acompanha o clube de perto, e o movimento aposta nessa mesma energia para atrair gente que talvez nunca tivesse pego um livro por conta própria.

A lógica é simples: se a paixão pelo Galo desperta curiosidade por uma resenha no feed de um jogador, o clube vira ponte para algo maior do que futebol. É um processo lento, torcedor por torcedor, mas coloca o livro dentro da conversa cotidiana da arquibancada, onde antes ele não estava.

Da arquibancada para dentro da escola

O próximo passo do movimento olha para fora do grupo de WhatsApp. Há um projeto em construção para levar o incentivo à leitura a crianças em situação de vulnerabilidade social, e a estratégia evita o caminho mais óbvio. Em vez de palestra sobre a importância de ler, a ideia é criar experiência: misturar livro, futebol, brincadeira e desafio em mesmo pacote.

Um dos formatos em desenvolvimento é uma gincana batizada de Galo Challenge, com desafios que cruzam personagens de livro e futebol, com direito a perguntas de conhecimento geral pelo caminho. A aposta da Galeitura é que a criança se divirta primeiro, e perceba, no meio da brincadeira, que ler também pode ser divertido.

Há ainda uma conversa em andamento entre a Galeitura e o Instituto Galo. O Instituto já tem estrutura para chegar a crianças e famílias por meio de projetos próprios, e a ideia é somar a esse trabalho o incentivo à leitura como frente adicional.

Um dos projetos discutidos é uma Biblioteca da Massa, com a própria torcida mobilizada para arrecadar livros e destiná-los a crianças e instituições que precisam. A proposta não para na doação: os livros arrecadados serviriam de ponto de partida para oficinas e rodas de leitura, incluindo edições do Galo Challenge, unindo a capacidade de mobilização da torcida ao trabalho social que o Instituto já desenvolve.

Ler é um hábito solitário que ganha outro peso quando vira prática coletiva, e esse espaço que a Galeitura decidiu ocupar dentro do universo do Atlético. Um país que debate índice de leitura, mas segue perdendo espaço para tela e notificação, precisa de pessoas dispostas a sustentar o hábito na prática, não só no discurso.

A Galeitura fez isso: transformou resenha de livro em comunidade, e comunidade em projeto social que já mira crianças fora da arquibancada. Não é pouco. É a torcida e o clube apostando juntos que o livro também é lance decisivo.


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