Foto: Pedro Souza / Atlético
Por: Thiago Florêncio
Existe algo mais preocupante do que ainda não ter vencido no Brasileirão: a sensação de que o time não sabe exatamente o que é hoje, a torcida já não tem mais aquela vontade de apoiar, vibrar, e cada vez mais, perde a confiança e identidade com o clube.
O Atlético começou o campeonato acumulando duas derrotas fora de casa, 1 a 0 para o Red Bull Bragantino e 2 a 1 diante do Grêmio, além de dois empates na Arena MRV, contra Palmeiras (2 a 2) e Remo (3 a 3). Não podemos achar que são apenas resultados, mas sim, jogos em que o time alterna bons momentos com lapsos que custam caro demais.
No estadual, a campanha também está longe de empolgar: três vitórias e seis empates em nove partidas. O último deles, 1 a 1 contra o América, novamente em casa. Agora, no Independência, neste domingo (1), precisamos de uma vitória simples para ir à final. A vaga importa. Mas o que está em jogo é algo mais profundo: estabilidade e confiança.
O problema não é criar, é sustentar
Os números até aqui, ajudam a contar a história, mas não explicam tudo. O Galo finaliza 13 vezes por jogo, cria quase três grandes chances por partida e marca, em média, 1,5 gol. Ou seja, não é um time estéreo ofensivamente, mas também está longe de ser confiável.
A equipe desperdiça demais quando o jogo pede frieza. Finaliza muito e acerta pouco o alvo. Chuta de fora sem critério. Cruza sem convicção. Parece sempre a um detalhe de engrenar, e sempre a um erro de desandar.
Mas isso vai além do que uma simples deficiência técnica, há um problema de maturidade competitiva. O time não sabe jogar o jogo que a partida exige. Quando precisa controlar, acelera. Quando precisa agredir, hesita. Quando sai na frente, não sustenta.
A defesa que não dá “descanso” à torcida
Sofrer dois gols por partida muda completamente o comportamento coletivo. Não existe plano tático que sobreviva quando você entra em campo praticamente obrigado a virar uma partida para vencer. A situação fica ainda pior quando você perde um dos homens de defesa ainda no primeiro tempo, como aconteceu no duelo contra o Grêmio, quando perdemos Natanael, logo aos 16 minutos.
O Atlético não tem conseguido defender a vantagem. Nem emocionalmente, nem estruturalmente. Perde duelos, perde segunda bola, perde território. A linha defensiva vive sob estresse constante.
No meu ponto de vista, isso não é apenas uma falha individual. É uma organização de blocos. É compactação que não se sustenta. É meio-campo que não protege como deveria. E quando um time não se sente protegido atrás, ele ataca com ansiedade.
A troca de comando é sintoma, não solução
A saída de Jorge Sampaoli não pode ser tratada como o ponto central do problema. Foi consequência. O interino Lucas Gonçalves tentou segurar o ambiente enquanto foi possível, teve segunda chance de fazer algo diferente, mas, novamente, não o fez. Agora, Eduardo Domínguez chega com a missão de reorganizar a casa. Mas é preciso dizer com clareza: não é apenas o treinador.
O Atlético vive um processo de decisões equivocadas que vêm de cima para baixo. A diretoria erra no planejamento. A comissão técnica erra na execução. E os jogadores erram dentro de campo. Quando todos falham ao mesmo tempo, o resultado é esse cenário atual instável, de total desânimo e insegurança dos torcedores.
Há mais de um ano o clube procura um primeiro volante que chegue, vista a camisa e entregue aquilo que a função exige: proteção e leitura de jogo. Um jogador que dê segurança à defesa, mas, por algum motivo, ainda não “encontrou”.
Se fala em zagueiros atentos, agressivos no bom sentido, concentrados os 90 minutos. O Atlético ainda sofre com desatenções básicas, com bolas aéreas mal defendidas, com perda de duelos que um time competitivo não pode aceitar.
E há algo ainda mais delicado: faltam peças que transmitam desejo e gana de vencer. Deixando claro que isso não é um discurso motivacional. É comportamento dentro de campo. É dividir bola como se fosse a última. É sustentar intensidade quando o jogo aperta. É mostrar que vestir essa camisa exige mais do que talento. Treinador nenhum corrige carência de perfil, muito menos, resolve sozinho falhas estruturais de mercado.
Mas os jogadores também não podem se esconder atrás da troca de comando. São eles que entram em campo. São eles que decidem. São eles que precisam ser cobrados quando o desempenho dentro das quatro linhas não corresponde ao tamanho do clube. O Galo não precisa apenas de um novo modelo tático, mas sim, necessidade de responsabilidade compartilhada. E isso começa na diretoria, passa pela comissão técnica e termina, inevitavelmente, dentro das quatro linhas.
No Independência, neste domingo, a vitória simples leva à final do Mineiro. Parece pouco para um elenco desse tamanho? Sim! Mas, hoje, esse resultado é enorme. Porque o Atlético não precisa provar que pode jogar bem por 20 minutos. Precisa provar que consegue ser sólido por 90.
A temporada ainda está no começo. O discurso de terra arrasada seria precipitado. Mas ignorar os sinais também seria ingenuidade. O Galo não precisa encantar agora, e sim, precisa voltar a ser confiável. E confiança, no futebol, se constrói com organização, responsabilidade e vitória.
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